Votos

Troco remédio por votos.

Sexta-feira, vi  uma postagem sobre o Dia Mundial do Combate ao Câncer. A peça fazia alusão à fosfoetanolamina, a polêmica pílula que promete a cura de qualquer tipo de câncer.

Na hora resolvi escrever sobre o assunto. Até porque, toda a polêmica gerada foi fruto de uma guerra deflagrada nas redes sociais, ou seja, uma batalha de comunicação. E se é comunicação… é assunto para a coluna do Brain.

Em resumo:
de um lado, os defensores da necessidade de se testar clinicamente a droga para que a população não corra o risco de consumir um placebo e assim acabar melancolicamente com as suas esperanças de cura… ou, até mesmo, de ingerir uma substância que ainda não se sabe se é prejudicial ou não à saúde;

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do outro lado, os que acreditam no real poder da fosfoetanolamina e que defendem a teoria de que existe uma conspiração para esconder a cura do câncer, beneficiando as grandes indústrias farmacêuticas.

Analisando essa segunda possibilidade, Paulo Hoff, conceituado oncologista brasileiro, pergunta:
“Seria possível comprar toda a comunidade científica e médica brasileira?” E prossegue com uma constatação: “No Brasil, 60% das pessoas com diagnóstico de câncer são curadas por tratamento. Ou seja, uma pessoa que tenha opção terapêutica curativa pode simplesmente abandoná-la por acreditar numa droga que ainda nem passou por testes científicos.”

Aliás, uma droga que até o momento não obteve resultados realmente significativos desde que foi produzida pela primeira vez.

E o que aconteceu nesses últimos dias?

O congresso, movido pela choradeira de uma significativa parcela de internautas que emocionalmente defendem a liberdade dos doentes de experimentar a droga, aprovou o projeto de lei que prevê a produção e a livre distribuição do produto. E, com uma verba orçamentária remanejada sabe-se lá de onde, liberou a pesquisa para medir a eficácia da droga, coisa que levará no mínimo 6 meses para se ter os primeiros resultados.

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Eu entendo, é claro, a angústia e o desalento das pessoas que têm parentes próximos ou amigos com câncer na incessante tentativa, muitas vezes alucinada, de alcançar a cura.
Mas desconfio sinceramente de que a aprovação do projeto tenha sido uma medida populista. Afinal, defender a “possibilidade real de cura”, ou a “última esperança” pode ser uma espertíssima (e assustadora) estratégia política de transformar desespero em votos.

Se for comprovada essa desconfiança (minha e de muita gente que é contrária à liberação de uma droga sem testes clínicos), o projeto, que espera apenas a sanção presidencial para ser colocado em prática, pode se transformar num precedente para novas investidas políticas como essa. E também em mais uma prova de que a opinião de milhares de pessoas nas redes sociais pode ser capaz de interferir na vida de todo mundo. Mesmo que essas pessoas sejam desinformadas como toda e qualquer maioria.

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É triste ter que aceitar constatações como a de Umberto Eco: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade.

Pois é, apesar de ter falado a semana passada em me policiar, eu mais uma vez escrevi um texto longo. Quer saber de uma coisa: não estou nem aí. Vou continuar a escrever do jeito que eu acho que tem que ser. Afinal, sempre vai ter alguém interessado em ler… como você.




2 comentários sobre “Troco remédio por votos.

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