shutterstock_457449070

Terceirização. Qual é o tamanho desse monstro?

O assunto do momento é a aprovação do projeto de lei que autoriza o trabalho terceirizado de forma irrestrita.

Independente de ser uma bandeira do governo na busca de um resultado favorável com a suposta criação de uma grande frente de trabalho (que lhe traria méritos e méritos), o tema é quase uma unanimidade: vai ser uma merda para o povo. Afinal, é a perda de direitos até então intocáveis dos trabalhadores: décimo terceiro, férias, fundo de garantia etc.

shutterstock_199627007

Não que os empregados corram o risco de perder esses benefícios em seus trabalhos, não. O que eles podem perder de fato são os próprios empregos, afinal é bastante tentador para o empregador substituir funcionários que lhe custam praticamente o dobro, segundo as regras da CLT, por terceirizados que lhe custarão apenas e tão somente o valor do salário. Sem contar que, como o índice de desemprego é alto, é muito fácil contratar profissionais por soldos menores até do que a média do mercado.

shutterstock_226044718

Mas não se deve demonizar os empregadores por essa prática aparentemente prejudicial e insensível. Não esqueçam que a grande maioria dos empresários sofre com os altíssimos impostos e o custo mastodôntico de se manter uma empresa sem a prática do caixa 2 ou de qualquer outra forma de sonegação. Os empresários que se beneficiam com grandes contratos do governo, ou outras vantagens escusas, são na verdade uma seleta minoria, representada basicamente por grandes banqueiros, construtores e milionários de outros setores que têm por hábito trocar gentilezas com os caciques do planalto.  O fato é que mais de 99% dos empregadores mal conseguem manter suas empresas no azul, especialmente em tempos de crise como o atual.

Mas também não me parece justo beneficiar empresários, mesmo que estes estejam atolados na merda. Até porque estão atolados apenas até o joelho, enquanto povo já tem dificuldade de respirar.

lama

Mas o assunto dessa postagem não é calcular qual parcela da população vai ser mais prejudicada com a lei. Como também não é foco saber se ela é fruto do interesse do governo ou não. Até porque esse é um projeto que foi idealizado lá no tempo do FHC, que foi apoiado no governo Dilma e implantado no atual governo Temer. A ideia aqui é testar o projeto, tentando dar a ele um sentido prático, imaginar o que ele pode representar para o mercado de trabalho em geral.

E não é preciso recorrer a gurus econômicos para se ter pelo menos uma noção do que vai de fato acontecer. Basta dar uma pesquisada no que é, e no que sempre foi, o mercado publicitário. Esse sim, campeão da terceirização.

shutterstock_364710131

Para quem não sabe, a profissão de publicitário foi regulamentada em 1965, mas o mercado é quem dita e sempre ditou as regras da categoria. As agências nunca exigiram formação universitária na hora de contratar os seus profissionais. O talento, a versatilidade, o desembaraço, a confiança e a dedicação sempre foram os grandes diferenciais dos profissionais na hora de construir seus currículos ou encarar as entrevistas de emprego.

Na minha humilde opinião, essa foi uma estratégia bastante funcional. Quem conhece da profissão sabe muito bem que esses atributos são de fato cruciais para quem quer se aventurar no mercado. E a produtividade e evolução dos profissionais está estritamente ligada aos resultados obtidos através do bom emprego desses atributos e não ao que se ensina nas universidades. Infelizmente essa é uma área onde a estrutura acadêmica sempre foi precária e pouquíssimas são as escolas com uma boa reputação no mercado.

shutterstock_204407080

Acontece que o próprio modelo de se contratar gente talentosa e habilidosa acabou supervalorizando os profissionais da área e atraindo gente de outros segmentos, como jornalistas, arquitetos, escritores, artistas plásticos e até mesmo advogados e administradores. Como os salários eram atraentes, e não se exigia formação acadêmica, a corrida para as agências foi intensa.

E apesar de ser uma atividade onde as margens de lucro sempre foram bastante generosas, houve um momento em que ficou muito difícil manter os salários dos profissionais e a avalanche de encargos e impostos a que os empresários da área se submetiam.

O primeiro passo foi negociar os salários de forma que os valores não aparecessem integralmente nas carteiras de trabalho. Assim, o funcionário teria um registro de apenas 20 ou 30% do salário em carteira e o restante ele receberia por fora, sem comprovação. Para o funcionário era bom porque não cairia nas faixas de 15, 22,5 e até 27,5% de imposto de renda retido na fonte. E para o empregador, é claro, excelente: uma economia de mais de 50% do valor final a ser pago.

shutterstock_295275620

Acontece que , como é uma área onde a carga de trabalho é muito variável e não pode ser medida por parâmetros estatísticos, como por exemplo o de produção em escala ou algo do tipo,  sempre foi bastante comum a contratação de freelancers para a execução de Jobs que fugiam à capacidade de produção das agências. E, é claro, todos esses trabalhos eram terceirizados. Uma prática bastante lógica diante dessa dificuldade de se prever tais variações no volume de trabalho.

Mas chegou um determinado momento do mercado em que os clientes começaram a questionar os altos honorários que pagavam para as agências em percentuais de mídia e produção. E pressionaram ao ponto de conseguir uma senhora redução nesses valores. Isso fez com que a margem de lucro das agências diminuísse consideravelmente.

shutterstock_103053974

E o que aconteceu?

Como a prática da terceirização já era bastante difundida no meio, as agências passaram a contratar profissionais terceirizados para cargas de trabalho de 8 horas diárias. Ou seja, boa parte (talvez até a maioria) dos funcionários das agências de publicidade passaram a ser terceirizados. E o mercado continuou a funcionar como sempre funcionou: apostando nos profissionais de maior talento e de grande capacidade produtiva, independente do sistema de contratação.

Não que esse modelo sirva como referência para o que se espera da nova lei. Até porque, a Publicidade sempre foi um mercado atípico… tanto pela licensiosidade como pelo padrão de valorização profissional.

Mas cabe refletir principalmente quando se analisa sob o ângulo da livre concorrência e da necessidade de se agregar valor profissional na hora de se buscar uma vaga no mercado de trabalho.

O que eu quero dizer é que a merda já está feita… e que chorar não é a melhor estratégia. Se você vai perder direitos trabalhistas, que se prepare então para se transformar no melhor profissional e ser valorizado por isso. É a nova lei satânica do mercado. E não foi feita para anjinhos.




Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *