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Sexta-feira negra.

Sexta passada, eu acordei estranho. Com uma sensação de culpa e ao mesmo tempo uma necessidade de me libertar dessa culpa, mesmo não sabendo do que se tratava.

Saí do quarto com a cara meio amassada de um sono mal dormido e quase atropelei a Marilda que saía do banheiro puxando um balde e um esfregão. Ao olhar nos seus olhos, percebi que ali poderia estar a minha culpa e, consequentemente, a chance de me redimir.

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Imediatamente pensei em suas dificuldades, o filho doente, o marido desempregado… e resolvi ajudar. E saí logo disparando:

“Marilda, você está precisando de alguma coisa, uma ajuda?”

E ela disse:

“Como assim?”

“Sei lá… uma roupa pro seu marido , um tênis pro Pedrinho, um pouco de dinheiro… “

“Mas o senhor não está todo encalacrado aí com dívidas e contas pra pagar?”

”Isso não tem nada a ver, Marilda. Eu posso ajudar sim”.

“Mas como o senhor pode ajudar se não paga o condomínio há 5 meses?”

“É, não pago mesmo, mas ainda assim eu posso ajudar.”

” Sr Brain, dá um tempo, vai. O senhor por acaso já pagou a padaria do mês passado?”

“Não.”

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“E os 2 mil que o senhor pediu emprestado pra sua irmã?”

“Putz, ainda não.. tenho que ligar pro banco pra dar um jeito nisso.”

“Falando em banco, o senhor não fez outro empréstimo esse mês?”

“Foi, fiz sim.”

“E já não é o terceiro que o senhor faz de agosto pra cá?”

“Nada disso, é o segundo… não, é isso mesmo, é o terceiro sim, mas…”

“Sr Brain, me diga uma coisa: o que aconteceu com aquele quadro feio, cheio de bandeirinhas que tinha na sala?”

“O Volpi que eu ganhei do meu pai?… eu vendi, Marilda, precisava pagar a escola dos meninos que eu não pagava desde o ano passado… Sim, mas isso não importa. Você está precisando ou não de dinheiro ou de alguma coisa?”

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Não, Sr Brain, obrigada. O senhor já é bom demais comigo me dando emprego. Eu não preciso mesmo, obrigada.”

 

Ela fez um omelete e um suco de laranja pra mim e foi embora porque o último ônibus pro seu bairro já tava quase passando.

Ao entrar no quarto, notei um bilhetinho aparecendo por baixo do meu livro de cabeceira. Dentro do bilhete tinha uma nota de 100 reais e o textinho:

 

“Sr Brain, deixei isso pro sinhô. Pra ajudá. Eu tenho umas economia aí. Paguei até o meu aluguel adiantado já. Quando pudé o sinhô me paga.

Ah, num esquece de dá comida pro Bob. Eu comprei um pacoti de ração daquela mais baratinha.

FICA CUM DEUS.

Marilda.”

 

Como não tinha ninguém em casa pra ver a minha cara de idiota, amassei o bilhetinho, enfiei o dinheiro no bolso e abri o jornal pra ver as ofertas do Black Friday da Fast Shop. Tô precisando de uma TV maior pra ver a NFL sem óculos.

 




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