14054298857_8759dbc5de_z
shutterstock_173175056 (1)

Essa coisa de querer ganhar prêmio a todo custo pode dar dor de cabeça. A Almap que o diga.

A Almap acaba de ganhar um Leão de Bronze em Cannes com uma campanha polêmica para a Aspirina. Leiam aqui a matéria do G1:

http://glo.bo/28RNtrT

aspirina 1

 

Os internautas que enxergaram a campanha como machista invadiram a página da agência para se posicionar:

https://www.facebook.com/AlmapBBDO/

 

Sobrou pra todo mundo.

aspirina2

 

A Bayer já tirou o seu da reta, dizendo que a agência só criou a campanha pra ganhar prêmio e que pagou a veiculação. Veja a matéria:

http://bit.ly/28S4G4g

 

 

aspirina3

 

Como diria o velho Mutley: Medalha, medalha, medalha!

 

 

 

 

 

22687067278_9c9bb5069b_z

Os redatores e seus textos de embalagem maravilhosos.

Eu sou aquele tipo de leitor compulsivo que lê embalagem de shampoo enquanto toma banho, bula de remédio sem estar doente e todos os textos da caixinha de suco enquanto engole o café da manhã.
Aliás, é exatamente sobre isso que eu quero falar hoje: os inacreditáveis textos impressos nas embalagens de sucos, chás e toda uma gama de produtos “saudavelmente corretos” que, com “muita” inspiração e criatividade, tentam nos convencer a consumir as marcas x ou y.

Convencer não com tabelas nutricionais e argumentos científicos, mas com historiazinhas curiosas e textos descoladinhos. É como diz a embalagem do suco de tangerina Do Bem: “sem adição de açúcares, água e conservadores, feito por jovens cansados da mesmice.” Pelo jeito isso se aplica aos próprios redatores das agências responsáveis pelo texto: criativos supostamente cansados da mesmice.

017 vai

A marca Do Bem, que praticamente inaugurou o estilo de textos cool em embalagens de produtos (pelo menos de sucos), até se saiu bem em sua investida. Antes dela, as embalagens eram de fato um porre, todas técnicas e chatas, dificilmente as pessoas liam. Apesar dos textos moderninhos e envolventes, a marca chegou a ter um problema com o Conar quando dizia em uma de suas historiazinhas que suas laranjas eras colhidas na fazenda do Seu Francisco, com a intenção de criar proximidade com o público através de uma história humana e casual (o princípio básico do storytelling). Acontece que as laranjas da marca Do Bem eram processadas em grandes fábricas que também produziam para outras marcas. A Do Bem se defendeu, o Conar arquivou o processo… e a marca continua com sua linguagem casual e bacaninha. Ponto pra ela.

O problema mesmo foram os “seguidores criativos” da Do Bem. E eu vou comentar alguns casos:

O primeiro é o do Detox da Smartlife que estampa na sua embalagem o seguinte texto: “…proporcionando bem estar e saúde às pessoas ativas e urbanas em busca de um estilo de vida equilibrado.”  Ou seja, se você optou por morar no meio rural, na sua fazenda ou numa pousada, esse produto definitivamente não é para o seu consumo.

detox smart life

Outro texto curioso de embalagem é do energético Beauty Drink: “Depois de correr, dançar, malhar e sonhar, Beauty Drink… para hidratar corpo e alma.“  Eu sinceramente não sei se minha alma anda seca o suficiente para ter que hidratá-la com um energético, mas fica a dica.

Beauty-in-Beauty-Drink7

Um dos piores casos sem dúvida é o da embalagem de uma cerveja produzida com casca de laranja que diz o segunte: “Essa cerva é uma homenagem à todos (com crase…sic) que, como a gente, quer (sic) acabar com essa ressaca, que acreditam ser possível beber com dignidade e cidadania, passear livremente pelos bares a cantar e se divertir. Por isso, “Laranja” não é uma cerveja loura e gaguejante: é uma cerveja feita com laranja! Aprecie!”  Sem comentários.

beba-essa-laranja-contrarrotulo-final

E, pra finalizar, o Chá Matte Leão, produzido pela Coca-Cola, cuja embalagem tem o sugestivo texto: “Cuide-se e sinta-se mais leve. Vale por um cafuné no ego.” Ou seja, você toma um chá mate e ganha um cafuné no ego. Acho que o chá que esse redator tomou foi outro.

014 vai

2151428369_afcf46dc61_z

A Realidade Diminuída.

Uma ação da Heineken viralizada essa semana com o vídeo “The Cliché” foi unanimidade nas redes sociais como peça criativa e inovadora. Sem dúvida, a ideia é muito boa. Mas logo na primeira vez que assisti, o vídeo me incomodou e muito… a ponto de eu recorrer à velha máxima de que uma produção ruim pode estragar até uma ideia fantástica. Só que nesse caso específico aconteceu um pouco diferente: uma ideia fantástica foi estragada por uma produção perfeita. Perfeita demais.

Como quase todos os bons títulos de anúncios já foram feitos, assim como praticamente todas as grandes ideias de filmes já foram percorridas, ficou muitíssimo difícil ser criativo na mídia offline. Soma-se a isso a crise, que reduziu drasticamente o investimento em produção e mídia, e o conservadorismo histórico dos clientes, que abrem mão da ousadia para manter suas suspeitas zonas de conforto, a saída das agências foi direcionar os seus cérebros privilegiados para as ações que envolvem experiências com o público e a viralização dos resultados dessas ações nas redes sociais (alternativas criativamente pouco exploradas e, é claro, bem mais baratas).

8495028329_8fba64e399_z

Resultado: uma enxurrada de vídeo-cases de ações de marca sendo compartilhados na internet, onde a tônica é sempre registrar em vídeo a reação das pessoas diante de uma situação inusitada em seu dia a dia. Acontece que nem sempre a reação das pessoas é a mesma que imaginam os ”cérebros privilegiados” que criam essas ações. Ou seja, na hora que a “câmera escondida” tenta registrar aquela expressão de surpresa ou de profunda emoção que as pessoas teoricamente teriam diante da situação imaginada, muitas vezes elas acabam reagindo de uma forma diferente, que não estava prevista no roteiro. Ou simplesmente não reagem com a intensidade que se esperava e que daria o tom ideal ao vídeo que está sendo captado pelas câmeras ocultas. Claro, são pessoas comuns, reagem conforme sua natureza, cada uma com o seu comportamento peculiar. Seria necessário filmar dezenas, centenas delas para se ter algo “próximo” do resultado esperado. E como esse processo consome tempo e acima de tudo dinheiro, a agência de publicidade sempre procura “dar um jeitinho” de resolver o problema “falseando levemente” a produção. Já sabendo da dificuldade, a agência costuma contratar atores para “reagirem” exatamente do jeito que o roteiro indica. Ou seja, na maioria esmagadora das vezes, o que vemos na internet (quando assistimos a um vídeo desses) é a interpretação de pessoas que já conhecem o roteiro e que são pagas para ter a reação “x” ou “y” e assim resolver o problema do vídeo.

15820238637_0d7a2855af_c (1)

Acontece que esse tipo de vídeo se caracteriza justamente por seu tom realista, pelo fato de registrar reações verdadeiras (e inesperadas) de pessoas comuns… diante de uma situação qualquer. Ou seja, você que assiste, e que ainda elogia fervorosamente a criatividade da peça, na verdade está sendo enganado, ludibriado pela esperteza desses publicitários que estão interessados apenas em fazer peças inusitadas e com elas ganhar prêmio e promoção profissional.

shutterstock_312215141

 

E essa manipulação da realidade foi exatamente o que aconteceu com o vídeo da Heineken que eu comentei lá em cima, no início do artigo. A cervejaria, através de sua agência de publicidade, contratou atores para reagirem à ação como se fossem pessoas comuns. E nesse caso específico ainda usaram planos de enquadramento e outras técnicas de filmagem claramente profissionais, em vez de optar pela câmera casual, com cara de escondida, procurando revelar uma imagem autêntica. Nada disso. O interesse nitidamente era fazer a “produção perfeita”, não se preocupando com a veracidade da história. Uma produção perfeita… para perfeitos idiotas como nós.

link do vídeo da Heineken: https://www.youtube.com/watch?v=wrmKl_HV4-A

shutterstock_120964594

Estudante de Publicidade tem que ser criativo, principalmente na hora de arrumar emprego.

Em Santos, quase 300 alunos formados por semestre em Publicidade e Propaganda são despejados no mercado de trabalho em busca de uma tão sonhada vaga de emprego. E as agências de publicidade locais, que seriam o primeiro foco de interesse dos recém-graduados, não oferecem vagas nem mesmo para 5% desses futuros profissionais.

Aí a pergunta é quase automática: por que o mercado local não consegue absorver essa galera sedenta por uma oportunidade? Aumento dos índices de desemprego? Agravamento da crise econômica, reduzindo a capacidade de contratação das agências?

6325120589_992aa130ea_z

Se algum desses motivos tem implicação direta no problema, ela certamente não é das maiores. O real motivo pode estar na sombra de um gigante. Isso mesmo, uma impressionante sombra que faz com que alguns setores da nossa economia local praticamente desapareçam. E esse gigante atende pelo nome de São Paulo.

É para lá que migram as verbas publicitárias dos poucos grandes clientes que a cidade produz. Essas empresas, que têm punch para investir em publicidade, preferem dotar suas verbas para grandes agências de São Paulo com a “ilusão” de que serão melhor atendidas.

3407057279_3c28d83a7e_z

Seria até um raciocínio lógico se na prática funcionasse, mas o que acontece de verdade é que essas grandes agências de São Paulo estão acostumadas a gerenciar budgets astronômicos, o que coloca os nossos anunciantes na categoria de pequenos clientes. E para pequenos clientes, essas agências já não dispõem de um atendimento assim tão profissional: é muito comum ver duplas de estagiários criando peças para clientes desse porte… assim como profissionais de atendimento novatos, mídias debutantes e planejadores de pouca experiência formando núcleos de execução de jobs do segundo escalão.

E isso acontece inclusive com as prefeituras da região e as grandes empresas do polo petroquímico e do porto. Imagine o impacto que a verba desses clientes teria no mercado publicitário local.

É bem provável que esses “grandes” anunciantes, que optaram pelas agências da capital, fossem melhor trabalhados pelas empresas de propaganda daqui. Aposto que o atendimento seria mais personaizado, até porque essa verba _ que para o mercado local é considerada grande _ poderia ser usada para melhorar a infraestrutura das nossas agências, especialmente com a contratação de novos profissionais.

Voltemos então aos 300 despejados das instituições de ensino. Diante desse quadro pouco inspirador, eles mesmos já saem de suas universidades com a intenção de trabalhar em São Paulo, afinal é lá que estão os grandes salários da área. Mas esse é um dos mercados mais cruéis para os neófitos dessa religião. As grandes agências paulistanas só dão oportunidades para estágios de baixa remuneração, o que acaba selecionando drasticamente os candidatos da baixada, afinal nem todo mundo tem recursos para bancar aluguéis em São Paulo ou deslocamentos diários até aparecer de fato a oportunidade de efetivação.

4608963722_7c88e503f8_z

E esse é um círculo vicioso, onde não existe vaga de emprego aqui porque as agências locais não têm estrutura. E não têm estrutura porque não têm verba. Verba que os bons clientes daqui levam para São Paulo, onde acabam sendo mal atendidos. Mal atendidos em agências que não absorvem os recém-formados daqui.

Resumo da ópera: cerca de 90% das pessoas que estudam publicidade e propaganda acabam trabalhando em funções que não têm relação alguma com a sua formação. E na maioria dos casos, acabam ganhando melhor do que se estivessem na área. Parece piada, mas é a triste realidade.

99396908_87601c3c90

Menos ego, mais ação.

Apesar da profissão ter perdido muito do seu glamour nessas duas últimas décadas, o publicitário sempre foi cultuado e reconhecido como um cara inteligente, moderno, descolado e, como não podia ser diferente, inovador. Especialmente os profissionais de criação. A soma dessa hipervalorização e dos altos salários que as agências de propaganda pagavam (até mesmo para meninos de vinte e poucos anos), fez com que seus egos inflassem e transformasse esse nicho de emprego vip na mais arrogante e metida a besta das categorias profissionais. É claro que existiam e ainda existem muitas exceções, mas quem conhece do setor sabe muito bem que eu não estou cometendo nenhum exagero. Pra vocês terem uma ideia, existem muito mais prêmios de publicidade no Brasil do que de cinema, teatro e televisão juntos.

9558628076_79a263e338_z

Mas não é justo apenas criticá-los. Mesmo que a qualidade dos criativos tenha caído bastante nos últimos anos (e isso se deve a vários outros fatores que eu não teria como citar todos aqui), é importante dizer que para exercer essa função é necessário sim um talento que poucos têm. Criação publicitária exige sinapses que nem todo cérebro consegue efetuar. Associações e codificações que só quem tem um senso de observação acentuado e uma bagagem de informação acima da média é capaz de executar.

Lastimável é ter todo esse potencial direcionado apenas para vender produtos e serviços… valorizar marcas e grifes… e trabalhar a imagem de políticos não necessariamente confiáveis.

E é nesse exato ponto que entra a Brandalism, o objetivo principal desse artigo.

3537067981_dc609038df_z

Brandalism é um movimento criado na Inglaterra que basicamente protesta contra a necessidade do consumo excessivo, desencadeado principalmente pela propaganda. Iniciou timidamente suas atividades em 2012 com dois artistas, uma van e a ideia de ocupar espaços publicitários com arte. O movimento ganhou corpo e hoje é referência mundial no que se refere a alertar as pessoas de que a publicidade estimula o consumo desenfreado e que isso não faz parte da natureza humana. Mas apesar do nome (brand = marca + vandalism = vandalismo) o movimento se notabilizou por uma atuação pacífica, onde a prática é transformar a propaganda de rua em arte.

23082454949_6185583e55_c

Há cerca de dois meses, o Brandalism fez o seu protesto mais interessante. Cobriu espaços publicitários de mídia exterior com cartazes que falavam diretamente com os profissionais de criação das grandes agências de publicidade de Londres. Com mensagens cujos títulos eram “Trabalha na JWT?” ou “Trabalha na Ogilvy” e um texto que dizia “Lembre-se que você está moldando o desejo das pessoas. Você tem poder e responsabilidade moral. Adoraríamos falar com você.” E assinava com o site da Brandalism.

jwt-london-1

A proposta ousada, que mais se caracteriza como um manifesto, é melhor explicada na voz de Robert Marcuse, um dos membros do Brandalism: “As habilidades de milhares de criativos são necessárias não para nos vender mais objetos, mas para superar as múltiplas crises sociais do nosso tempo, como as mudanças climáticas, a desigualdade social e a pobreza entre as crianças. Queremos iniciar uma conversa com aqueles que trabalham na publicidade sobre como ir além do consumo e do crescimento econômico”.

Por mais utópica que seja, a proposta é realmente brilhante, mesmo que fique apenas no campo do discurso. Mas seria muitíssimo importante que todos os profissionais de criação ao menos entendessem essa provocação e percebessem que o seu trabalho poderia de fato ter uma utilidade pública e não apenas econômica.

Que você, publicitário, seja capaz de compreender que o seu potencial criativo pode e deve ser canalizado também para algo mais nobre, para ações que realmente possam trazem benefícios para todos e não apenas colocar as pessoas num mundo de ilusões onde o desejo é essencialmente material e nunca emocional. Já imaginou salvar uma criança de morrer de fome com uma ideia sua? Pois é, esse pode ser o maior prêmio da sua vida.

5712979693_81fd3c5108_z

O pequeno mundo das redes sociais.

“As pessoas não usam as redes sociais para unir ou para ampliar os seus horizontes. Usam, na verdade, para se fechar em zonas de conforto onde o único som que escutam é o eco de sua própria voz… onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras.” O argumento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, crítico mordaz da política global e das benesses da revolução digital, traz ainda um desfecho preocupante: “As redes são muito úteis, oferecem serviços bastante prazerosos, mas são uma armadilha”.

10325280453_8f6c1bed1c_c

Exatamente isso!

Facebook, Snapchat, WhatsApp e os Telegrams da vida nada mais são do que estábulos organizados onde bovino convive com bovino, equino com equino e suíno com suíno. Acontece que esse gado não é capaz de enxergar o próprio confinamento e galopa eufórico em seu espaço demarcado sem perceber que o seu destino é o abate social. Como diria o velho e bom Zé Ramalho: Ê Ê Ô, vida de gado. Povo marcado, povo feliz.

E nem pense em convencer essas pessoas a se libertarem desse mundinho… elas projetam esse nicho como uma célula de segurança, onde as opiniões diferentes permanecem do lado de fora, protegidas por um campo de força impenetrável. Um lugar onde não há contestações ou discussões, apenas concordância. Um lugar onde todos têm a obrigação de pensar igual, de reagir como todos reagem, de terem as mesmas visões políticas, sociais ou filosóficas… sob o risco de serem banidos, expulsos, bloqueados.

shutterstock_249053572

E não pense também que se trata apenas de diversão. Se houvesse uma enquete sobre o que é realmente importante na vida das pessoas, eu aposto que o WhatsApp estaria entre as 3 primeiras, disputando palmo a palmo com filhos, pais, maridos e esposas.

Se você acha que eu estou exagerando, experimente proibir alguém de usar smartphone, tablet ou computador. Esse alguém não vai sentir falta de fazer chamadas via celular ou de fazer pesquisas na internet. Nada disso. Ele vai tremer, como na abstinência de um viciado em drogas, por não poder se relacionar com os seus amigos do WhatsApp e do Facebook.

É claro que há exceções. E num universo de milhões de pessoas, elas não podem ser poucas. Existe sim vida inteligente nas redes sociais, mas essa não precisa de conselho ou alerta.

Apesar de oferecer infinitas possibilidades de troca de informações e um vastíssimo campo de absorção de conteúdo, o que realmente uma rede social costuma imprimir em seus participantes é um processo severo de idiotização. Onde predominam o cerceamento dos pontos de vista, a desconstrução do sentido de democracia e a apologia ao enfrentamento.

4171072028_e77b84bfe8_z (1)

E o mais incrível é que as pessoas não enxergam nada disso. Pra elas, tudo é normal. Acham que esse odiozinho destilado na rede faz parte de suas personalidades, que, na verdade, todos são assim. Elas só esquecem que esse ódio e essa diferença nasceram justamente dentro dessa redoma de segurança. Esquecem que essa coragem só existe porque é virtual. Porque ninguém corre o risco de tomar um tapa na cara. E esquecem também de que existe um mundo real lá fora, onde a regra ainda é respeitar os outros.

As redes sociais tinham tudo para ser o espaço perfeito de integração, mas infelizmente são compostas por esse gigantesco rebanho agrupado em ilhas de mediocridade e separado por gados de muita carne, pouco leite e zero de tutano.

Crises

A propaganda da crise.

Um sujeito tinha um carrinho de cachorro quente na beira da estrada. Era um cara dedicado, trabalhador e com uma boa visão comercial. Aliás, o seu negócio ia de vento em popa. Mas o sucesso não tinha nada de surpreendente. Ele servia um produto de qualidade e investia muito em propaganda. Na estrada era comum ver placas indicando “O melhor cachorro quente a 2 km”, “… a 1 km”, “… a 500 m”. Tanto na pista de ida como na de volta.

Como era de se esperar, o empreendimento cresceu e em pouco tempo já era uma rede de food trucks com o melhor cachorro quente do estado. E para perpetuar o negócio, mandou o seu filho mais velho estudar Economia em Harvard. Formado, o rapaz (que era o xodó do pai) voltou para o Brasil e assumiu a administração da empresa.

14234288364_4f3832ef58_c

Trazendo notícias da iminente crise mundial, o jovem convenceu o pai a fazer cortes radicais no orçamento. Como primeira medida, suspendeu integralmente a verba de propaganda. Resultado: em pouco mais de 6 meses, bem no meio da crise, a empresa quebrou. O pai, que amava o filho acima de qualquer coisa, ao assinar a falência com os olhos marejados, disse apenas: “Bem que o meu filho me avisou sobre a crise”.

credit-squeeze-taxation-purse-tax-economic-stress

A fábula, apesar de antiga, é interessante. E o seu final filosófico, que prega o desapego material e a compreensão, chega a ser comovente.

Mas me desculpem, isso é apenas uma fábula. Sou publicitário e vivo de estimular o consumo, mesmo que ele vá de encontro à ideologia imaculada de quem condena o capitalismo e suas influências. E, gostando ou não, vivemos num capitalismo. E é nele que temos que aprender a ser justos, corretos e inteligentes. Afinal, é preciso sobreviver.

O que realmente se extrai dessa história não é um ensinamento de mestres ou gurus e sim um grande erro mercadológico que destruiu uma empresa honesta, sadia e que provavelmente daria sustento para as próximas gerações da família. Sustento e exemplo.

Aliás, a história pode se encaixar perfeitamente nos dias de hoje. O que mais se vê ultimamente é retração de investimentos, cortes de budgets, demissões, pés no freio. É óbvio que o momento exige inteligência e parcimônia. Mas cortar verba de propaganda pode ser um claro exemplo de tiro no pé. Como aconteceu com o carrinho de cachorro quente.

shutterstock_126451415

Na crise, as pessoas não param de consumir. Elas se tornam mais comedidas e seletivas em relação ao consumo. Mas se você tira o seu produto de evidência, essas pessoas não vão enxergá-lo e consequentemente não vão consumi-lo.

Não adianta ficar falando de crise, isso só estimula a retração. O importante é divulgar o seu produto. Porque essa ainda é a melhor forma de alcançar o consumidor, independente do momento.

É como bem disse um outdoor que andou circulando na internet:
Sabe por que a crise pegou? Porque ela fez propaganda.

alma

O negócio é a alma da propaganda.

A Fenapro – Federação Nacional das Agências de Propaganda – acaba de divulgar um manifesto que destaca a importância do papel da comunicação nesse momento meio conturbado por que passamos. Até aí, tudo bem. Eu só não consegui entender exatamente qual é a intenção do manifesto. Vamos lá.

Abre o documento, a seguinte afirmação: “O Brasil vive um dos mais acirrados debates políticos de sua História, e nunca a comunicação teve um papel tão fundamental na divulgação das informações envolvendo os episódios da cena política.”

3592066001_3eae268e7c

Isso é fato. Não há como negar. Nunca nesse país houve tamanha mobilização, provocada exclusivamente pelo poder da comunicação.

O documento segue e chega num ponto que me parece mais significativo: “Em um contexto onde os meios eletrônicos de difusão de informações, e em especial as redes sociais e a internet, tornaram-se parte fundamental do exercício da democracia, também se constata muita informação desencontrada, inverídica e contraditória,o que acirra o debate e cria insegurança quanto ao que deve ser entendido como o caminho do equilíbrio, da justiça e da verdade.”

Desculpe, mas o fato de as pessoas postarem absurdos no facebook e usarem a internet para compartilhar matérias muitas vezes de teor pernicioso, revelando a pocilga que se transformou o jornalismo online, não me faz crer que a difusão de informações na net seja um exercício de democracia. O que as redes sociais fizeram na verdade foi bagunçar a cabecinha dos usuários, transformando-os em defensores de causas insensatas ou extravagantes. E o pior de tudo, criando uma bipartição de opiniões regadas a animosidade e rancor, com episódios offline de violência e selvageria. Não lembro de ter aprendido na escola que democracia significasse algo do tipo.

1-goats-animal-bock-billy-goat-domestic-goat

Um pouco mais à frente outro trecho curioso: ” Todo emissor de uma comunicação deve dar a devida importância ao que comunica e responsabilizar-se pelas consequências.”

A frase chega a ser divertida, aliás a carta da Fenapro mais parece uma professora de Educação Moral e Cívica falando com seus alunos desatentos no início da década de 80.

Caros diretores da Fenapro, apesar do Marco Civil da internet, as redes sociais ainda são praticamente terra de ninguém. O povo fala o que quer, ouve o que não quer e, o pior, convence aqueles que não sabem falar nem ouvir. Vide a atuação da militância política digital, talvez o grande câncer do ambiente online. Não sou contra a propaganda política na internet, mas criar perfis fakes disseminadores de informação tendenciosa ou forjar matérias com fatos irreais e estatísticas deturpadas com a intenção declarada de cooptar correligionários inocentes ou, ainda mais grave, acobertar crimes políticos e sociais, me soa de uma irresponsabilidade ímpar, com muitas consequências… e pouca ação legal.

144539910

E aí chega o ponto do manifesto em que eu quase consegui entender a intenção da Fenapro:
“O Brasil tem uma propaganda madura e responsável, que se destaca como uma das melhores do mundo. E há mais de 15.000 agências no nosso País, prontas para contribuir com uma propaganda eficaz. Temos também veículos de comunicação independentes e éticos. O sistema composto pelo investimento publicitário é a garantia de uma imprensa livre e independente.”

Eita!
Onde está a relação entre as “agências prontas para contribuir com uma propaganda eficaz” e os “veículos de comunicação independentes e éticos”? Ora, que eu saiba ela é apenas comercial. Ter um aporte financeiro dos clientes através de propaganda executada pelas agências não torna os veículos éticos. E o investimento publicitário não é a garantia de uma imprensa livre e independente. Pelo contrário, a imprensa acaba sendo refém desse investimento para sobreviver e consequentemente se torna mais flexível em relação a divulgar algo que não seja do interesse de seus investidores.

achievement-bar-business-chart-coin-coins-diagram

O manifesto, na minha opinião, é um discurso moderado de uma Federação que se viu na obrigação de se posicionar nesse momento delicado do país. Só que o texto acaba dando uma leve escorregada no terreno ensaboado da conveniência.

Mas, tudo bem. Afinal, quem é que vai dar tanta importância assim pra esse texto? (além de mim)

O MANIFESTO DA FENAPRO: http://bit.ly/1SGLg0L

Votos

Troco remédio por votos.

Sexta-feira, vi  uma postagem sobre o Dia Mundial do Combate ao Câncer. A peça fazia alusão à fosfoetanolamina, a polêmica pílula que promete a cura de qualquer tipo de câncer.

Na hora resolvi escrever sobre o assunto. Até porque, toda a polêmica gerada foi fruto de uma guerra deflagrada nas redes sociais, ou seja, uma batalha de comunicação. E se é comunicação… é assunto para a coluna do Brain.

Em resumo:
de um lado, os defensores da necessidade de se testar clinicamente a droga para que a população não corra o risco de consumir um placebo e assim acabar melancolicamente com as suas esperanças de cura… ou, até mesmo, de ingerir uma substância que ainda não se sabe se é prejudicial ou não à saúde;

13473915544_383768fe6e_c

do outro lado, os que acreditam no real poder da fosfoetanolamina e que defendem a teoria de que existe uma conspiração para esconder a cura do câncer, beneficiando as grandes indústrias farmacêuticas.

Analisando essa segunda possibilidade, Paulo Hoff, conceituado oncologista brasileiro, pergunta:
“Seria possível comprar toda a comunidade científica e médica brasileira?” E prossegue com uma constatação: “No Brasil, 60% das pessoas com diagnóstico de câncer são curadas por tratamento. Ou seja, uma pessoa que tenha opção terapêutica curativa pode simplesmente abandoná-la por acreditar numa droga que ainda nem passou por testes científicos.”

Aliás, uma droga que até o momento não obteve resultados realmente significativos desde que foi produzida pela primeira vez.

E o que aconteceu nesses últimos dias?

O congresso, movido pela choradeira de uma significativa parcela de internautas que emocionalmente defendem a liberdade dos doentes de experimentar a droga, aprovou o projeto de lei que prevê a produção e a livre distribuição do produto. E, com uma verba orçamentária remanejada sabe-se lá de onde, liberou a pesquisa para medir a eficácia da droga, coisa que levará no mínimo 6 meses para se ter os primeiros resultados.

243p

Eu entendo, é claro, a angústia e o desalento das pessoas que têm parentes próximos ou amigos com câncer na incessante tentativa, muitas vezes alucinada, de alcançar a cura.
Mas desconfio sinceramente de que a aprovação do projeto tenha sido uma medida populista. Afinal, defender a “possibilidade real de cura”, ou a “última esperança” pode ser uma espertíssima (e assustadora) estratégia política de transformar desespero em votos.

Se for comprovada essa desconfiança (minha e de muita gente que é contrária à liberação de uma droga sem testes clínicos), o projeto, que espera apenas a sanção presidencial para ser colocado em prática, pode se transformar num precedente para novas investidas políticas como essa. E também em mais uma prova de que a opinião de milhares de pessoas nas redes sociais pode ser capaz de interferir na vida de todo mundo. Mesmo que essas pessoas sejam desinformadas como toda e qualquer maioria.

14896658856_79125a7262_c

É triste ter que aceitar constatações como a de Umberto Eco: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade.

Pois é, apesar de ter falado a semana passada em me policiar, eu mais uma vez escrevi um texto longo. Quer saber de uma coisa: não estou nem aí. Vou continuar a escrever do jeito que eu acho que tem que ser. Afinal, sempre vai ter alguém interessado em ler… como você.