alma

O negócio é a alma da propaganda.

A Fenapro – Federação Nacional das Agências de Propaganda – acaba de divulgar um manifesto que destaca a importância do papel da comunicação nesse momento meio conturbado por que passamos. Até aí, tudo bem. Eu só não consegui entender exatamente qual é a intenção do manifesto. Vamos lá.

Abre o documento, a seguinte afirmação: “O Brasil vive um dos mais acirrados debates políticos de sua História, e nunca a comunicação teve um papel tão fundamental na divulgação das informações envolvendo os episódios da cena política.”

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Isso é fato. Não há como negar. Nunca nesse país houve tamanha mobilização, provocada exclusivamente pelo poder da comunicação.

O documento segue e chega num ponto que me parece mais significativo: “Em um contexto onde os meios eletrônicos de difusão de informações, e em especial as redes sociais e a internet, tornaram-se parte fundamental do exercício da democracia, também se constata muita informação desencontrada, inverídica e contraditória,o que acirra o debate e cria insegurança quanto ao que deve ser entendido como o caminho do equilíbrio, da justiça e da verdade.”

Desculpe, mas o fato de as pessoas postarem absurdos no facebook e usarem a internet para compartilhar matérias muitas vezes de teor pernicioso, revelando a pocilga que se transformou o jornalismo online, não me faz crer que a difusão de informações na net seja um exercício de democracia. O que as redes sociais fizeram na verdade foi bagunçar a cabecinha dos usuários, transformando-os em defensores de causas insensatas ou extravagantes. E o pior de tudo, criando uma bipartição de opiniões regadas a animosidade e rancor, com episódios offline de violência e selvageria. Não lembro de ter aprendido na escola que democracia significasse algo do tipo.

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Um pouco mais à frente outro trecho curioso: ” Todo emissor de uma comunicação deve dar a devida importância ao que comunica e responsabilizar-se pelas consequências.”

A frase chega a ser divertida, aliás a carta da Fenapro mais parece uma professora de Educação Moral e Cívica falando com seus alunos desatentos no início da década de 80.

Caros diretores da Fenapro, apesar do Marco Civil da internet, as redes sociais ainda são praticamente terra de ninguém. O povo fala o que quer, ouve o que não quer e, o pior, convence aqueles que não sabem falar nem ouvir. Vide a atuação da militância política digital, talvez o grande câncer do ambiente online. Não sou contra a propaganda política na internet, mas criar perfis fakes disseminadores de informação tendenciosa ou forjar matérias com fatos irreais e estatísticas deturpadas com a intenção declarada de cooptar correligionários inocentes ou, ainda mais grave, acobertar crimes políticos e sociais, me soa de uma irresponsabilidade ímpar, com muitas consequências… e pouca ação legal.

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E aí chega o ponto do manifesto em que eu quase consegui entender a intenção da Fenapro:
“O Brasil tem uma propaganda madura e responsável, que se destaca como uma das melhores do mundo. E há mais de 15.000 agências no nosso País, prontas para contribuir com uma propaganda eficaz. Temos também veículos de comunicação independentes e éticos. O sistema composto pelo investimento publicitário é a garantia de uma imprensa livre e independente.”

Eita!
Onde está a relação entre as “agências prontas para contribuir com uma propaganda eficaz” e os “veículos de comunicação independentes e éticos”? Ora, que eu saiba ela é apenas comercial. Ter um aporte financeiro dos clientes através de propaganda executada pelas agências não torna os veículos éticos. E o investimento publicitário não é a garantia de uma imprensa livre e independente. Pelo contrário, a imprensa acaba sendo refém desse investimento para sobreviver e consequentemente se torna mais flexível em relação a divulgar algo que não seja do interesse de seus investidores.

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O manifesto, na minha opinião, é um discurso moderado de uma Federação que se viu na obrigação de se posicionar nesse momento delicado do país. Só que o texto acaba dando uma leve escorregada no terreno ensaboado da conveniência.

Mas, tudo bem. Afinal, quem é que vai dar tanta importância assim pra esse texto? (além de mim)

O MANIFESTO DA FENAPRO: http://bit.ly/1SGLg0L




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