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O marketing matador.

Parece que algumas coisas estranhas só conseguem autorização divina para acontecer aqui… no nosso país.

Quem não lembra de Geisy Arruda, que virou celebridade por ser hostilizada na universidade ao ir à aula com uma saia rosa muito curta… o que lhe rendeu fama, dinheiro e uma posição de causar inveja a todas as saias curtas do país?

Ou mais recentemente de um assaltante que foi preso na Bahia e que em dois meses virou um MC de sucesso, vendendo milhares de cópias da música “Me libera nega”, que foi popularizada só porque a TV acabou filmando o elemento cantando dentro da viatura?

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O fato bizarro da semana é um tanto diferente. Envolve, ao contrário dos outros, um sujeito que já era personalidade, mas que estava preso por ter mandado matar a sua ex-amante e possivelmente ter dado o seu corpo para os cães comerem. E que agora volta aos noticiários por estar solto e por ter sido contratado por um time de futebol de Minas que quer se promover à custa de sua fama de assassino.

A figura em questão se chama Bruno Fernandes de Souza, nascido em 11 de março de 1984, em Ribeirão das Neves – MG, que foi condenado a 22 anos e 3 meses de cadeia por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver e que o ministro do Superior Tribunal Federal, Dr. Marco Aurélio Mello, concedeu a liberdade após ter ficado preso por apenas 6 anos e 7 meses.

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Solto no dia 24 de fevereiro de 2017 por bom comportamento, o ex-goleiro do Flamengo já deu uma declaração que traduz a sua personalidade de bad boy: “O fato de eu ficar mais tempo preso não a traria de volta”.

Se fosse nos Estados Unidos, onde as leis são feitas para serem cumpridas, o atleta teria amargado uma pena muito maior. Ou pelo menos não teria essa redução desrespeitosa que permite que um autor de um crime hediondo volte para a sociedade em pouco mais de seis anos. Nos Estados Unidos, um preso com menos de 10 anos de pena é considerado de alto risco de reincidência no crime e, por isso, deve ser submetido a um intenso trabalho de ressocialização, recebendo acompanhamento psicológico, prestando serviços sociais em comunidades carentes e sendo controlado de perto pelo estado.

A ressocialização de Bruno é no mínimo glamourosa. Vai voltar a jogar futebol, que é o que sempre quis na vida, e defender as cores de um time profissional do seu estado, ganhando 12 mil reais por mês e já com aumento garantido para 20 mil a partir de maio, ou seja, daqui a dois meses.  Pode parecer pouco dinheiro para um ex-goleiro de uma grande equipe como o Flamengo, mas não esqueçam que ele ainda deveria estar preso, limpando as latrinas das celas, como todo homicida triplamente qualificado.

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Mas o assunto desse artigo não tem nada a ver com o sistema judiciário e suas determinações penais. Essa introdução só serve para contextualizar o foco da matéria: o marketing institucional.

E o alvo da crítica não é o penalizado e nem mesmo o penalizador, mas sim uma entidade esportiva que resolveu se promover contratando o famoso assassino e assim direcionar os holofotes para o clube, que até então não passava de um coadjuvante no futebol brasileiro.

O Boa Esporte Clube de Varginha, time da segunda divisão do futebol mineiro, foi o grande articulador desse marketing institucional polêmico, pra não dizer suspeitoso e, em se tratando do tema “violência contra as mulheres”, escandalosamente preconceituoso.

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Como pode um time de futebol contratar um assassino , um homem que matou a ex-amante por não querer reconhecer a paternidade de um filho seu? Quais são os critérios dos diretores do clube? Eles afirmam que estão contribuindo justamente para esse processo de ressocialização de um ex-detento, dando-lhe oportunidade de reinserção na sociedade. São uns descarados, filhos da puta… isso sim. Por que, em vez de contratar o Bruno, não fizeram uma seleção de 4 ou 5  ex-presidiários da mesma cadeia a título de criar oportunidade pra eles? Seria bem mais barato do que os 20 mil mensais que vão pagar para o goleiro. Mas, é claro, não traria ao clube a visibilidade que eles esperam conseguir com a proeza de contratar uma personalidade do futebol nacional, mesmo sendo um assassino frio e sarcástico.

Mas existem coisas ainda mais dolorosas: ver, por exemplo, uma foto dessas (abaixo), tirada essa semana no campo de treino do Boa Esporte, onde três crianças e duas mulheres esperam pacientemente na fila para pedir autógrafo a Bruno, o goleiro matador.

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Não sei mais como qualificar esse episódio, mas espero que a torcida do clube e especialmente os seus patrocinadores tomem alguma atitude para frear esse jogo de interesses bizarros.

Merecem elogios as empresas Grupo Góis & Silva, Kanza, Cardiocenter Varginha, Magsul e Nutrends Nutrition que já cancelaram seus contratos de patrocínio com o clube.

Mas cabe lembrar que a Profile, a Kipão, a Kanxa, a Fenix, a Fazenda Ouro Velho, a Dengue Control e a própria prefeitura ainda apoiam o clube.

Só um conselho para a população de Varginha: Bruno pode ser a bola da vez do Boa Esporte, mas não deixem que ele seja um gol contra para a cidade.




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