99396908_87601c3c90

Menos ego, mais ação.

Apesar da profissão ter perdido muito do seu glamour nessas duas últimas décadas, o publicitário sempre foi cultuado e reconhecido como um cara inteligente, moderno, descolado e, como não podia ser diferente, inovador. Especialmente os profissionais de criação. A soma dessa hipervalorização e dos altos salários que as agências de propaganda pagavam (até mesmo para meninos de vinte e poucos anos), fez com que seus egos inflassem e transformasse esse nicho de emprego vip na mais arrogante e metida a besta das categorias profissionais. É claro que existiam e ainda existem muitas exceções, mas quem conhece do setor sabe muito bem que eu não estou cometendo nenhum exagero. Pra vocês terem uma ideia, existem muito mais prêmios de publicidade no Brasil do que de cinema, teatro e televisão juntos.

9558628076_79a263e338_z

Mas não é justo apenas criticá-los. Mesmo que a qualidade dos criativos tenha caído bastante nos últimos anos (e isso se deve a vários outros fatores que eu não teria como citar todos aqui), é importante dizer que para exercer essa função é necessário sim um talento que poucos têm. Criação publicitária exige sinapses que nem todo cérebro consegue efetuar. Associações e codificações que só quem tem um senso de observação acentuado e uma bagagem de informação acima da média é capaz de executar.

Lastimável é ter todo esse potencial direcionado apenas para vender produtos e serviços… valorizar marcas e grifes… e trabalhar a imagem de políticos não necessariamente confiáveis.

E é nesse exato ponto que entra a Brandalism, o objetivo principal desse artigo.

3537067981_dc609038df_z

Brandalism é um movimento criado na Inglaterra que basicamente protesta contra a necessidade do consumo excessivo, desencadeado principalmente pela propaganda. Iniciou timidamente suas atividades em 2012 com dois artistas, uma van e a ideia de ocupar espaços publicitários com arte. O movimento ganhou corpo e hoje é referência mundial no que se refere a alertar as pessoas de que a publicidade estimula o consumo desenfreado e que isso não faz parte da natureza humana. Mas apesar do nome (brand = marca + vandalism = vandalismo) o movimento se notabilizou por uma atuação pacífica, onde a prática é transformar a propaganda de rua em arte.

23082454949_6185583e55_c

Há cerca de dois meses, o Brandalism fez o seu protesto mais interessante. Cobriu espaços publicitários de mídia exterior com cartazes que falavam diretamente com os profissionais de criação das grandes agências de publicidade de Londres. Com mensagens cujos títulos eram “Trabalha na JWT?” ou “Trabalha na Ogilvy” e um texto que dizia “Lembre-se que você está moldando o desejo das pessoas. Você tem poder e responsabilidade moral. Adoraríamos falar com você.” E assinava com o site da Brandalism.

jwt-london-1

A proposta ousada, que mais se caracteriza como um manifesto, é melhor explicada na voz de Robert Marcuse, um dos membros do Brandalism: “As habilidades de milhares de criativos são necessárias não para nos vender mais objetos, mas para superar as múltiplas crises sociais do nosso tempo, como as mudanças climáticas, a desigualdade social e a pobreza entre as crianças. Queremos iniciar uma conversa com aqueles que trabalham na publicidade sobre como ir além do consumo e do crescimento econômico”.

Por mais utópica que seja, a proposta é realmente brilhante, mesmo que fique apenas no campo do discurso. Mas seria muitíssimo importante que todos os profissionais de criação ao menos entendessem essa provocação e percebessem que o seu trabalho poderia de fato ter uma utilidade pública e não apenas econômica.

Que você, publicitário, seja capaz de compreender que o seu potencial criativo pode e deve ser canalizado também para algo mais nobre, para ações que realmente possam trazem benefícios para todos e não apenas colocar as pessoas num mundo de ilusões onde o desejo é essencialmente material e nunca emocional. Já imaginou salvar uma criança de morrer de fome com uma ideia sua? Pois é, esse pode ser o maior prêmio da sua vida.




Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *