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Era uma vez numa campanha política…

Como dizem os novos políticos, Olá minhas amigas e meus amigos!

Mil desculpas pelo sumiço, mas chegou um determinado momento em que minha conta bancária começou a me ameaçar de morte então eu tive que arregaçar as mangas e aceitar a proposta de atuar como redator em uma campanha política. Eu costumo dizer que existem mil maneiras de você se prostituir, mas a campanha política certamente é a menos prazerosa na hora do sexo e a mais interessante na hora do pagamento. Na verdade, já foi bem mais interessante financeiramente. Com as novas regras de doações de verba de empresas e particulares, os salários deram uma boa despencada, o que tornou o “sexo” ainda mais doloroso. Ou dolorido.

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O maior desconforto é o fato de você ter que se dedicar ao trabalho com uma intensidade absurda, provocando jornadas de até 18 horas diárias de uma labuta que sugere rima (desculpem a indelicadeza, mas quem já trabalhou nisso sabe do que eu estou falando)

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Ou seja, não tive a menor chance de escrever um artigo sequer. Mas, já que a política foi a grande responsável pela ausência temporária do Blog do Brain, o assunto de hoje evidentemente será “política”. Na verdade será sobre a experiência de um outro redator, grande amigo meu, em uma campanha para prefeito de uma cidade do interior do estado do Pará, contada por ele mesmo:

 

“A campanha já começou estranha quando o candidato entrou em nossa sala pela primeira vez e falou para que não escrevêssemos em seus textos palavras com “erre” porque ele tinha língua presa e não as pronunciaria bem.

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Aí eu imediatamente imaginei o tamanho da dificuldade de uma missão com tal complexidade (curiosamente essa frase que eu acabei de escrever não tem nem um “erre”, o que demonstra que era possível sim atender ao pedido do candidato, pelo menos parcialmente)

Como não havia tempo suficiente para contratarmos um fonoaudiólogo, tivemos que encarar a missão.

Cinco dias depois, sai a primeira pesquisa: estamos 15 pontos à frente do segundo colocado, um sujeito bonitão, bem articulado e que pronunciava os erres de uma maneira clara, enfática,  vibrante, sonora (o marketing e suas geniais investidas em tendões de Aquiles superexpostos ). Foi o início de um evidente viés de baixa.

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Tudo caminhava relativamente mais ou menos quando a comitiva do candidato (que, é bom deixar claro, não nutria a mínima simpatia pela galera do marketing) apareceu com uma mulher bonita, elegante, dos seus quarenta e tantos anos, e que exalava um forte aroma de sexualidade e poder.

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Nos foi apresentada como uma ex-deputada estadual reverenciada na cidade e responsável pelos maiores benefícios que o município obteve em toda sua história. A ordem era gravar imediatamente um depoimento seu apoiando o nosso candidato, editá-lo e incluí-lo no programa que ia ao ar ainda de noite. Sem ter tempo para pesquisar a história política da ex-deputada, executamos a ordem com a tradicional velocidade de quem escreve no computador com a pressão de uma faca na lateral do pescoço.

No dia seguinte, o candidato rival entra no ar com um vídeo de 6 anos atrás, onde a tal mulher acusava o nosso candidato de assédio sexual e violência. Teriam sido adversários políticos nessa época e, com a mudança de partido de ambos, agora se tornavam aliados… coisas da política. Resultado: 8 pontos a menos na pesquisa na semana seguinte.

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Tudo caminhava relativamente mal quando o nosso candidato participou de uma entrevista na principal rádio da cidade. Inesperadamente (pra nós do marketing, é claro) ele disse (numa mistura de língua presa com língua solta) que teria acertado com empresários americanos a chegada de uma grande indústria de celulose para ser instalada na área rural da cidade (entenda-se floresta amazônica). No dia seguinte, o candidato rival entrou com um programa exclusivamente sobre meio ambiente e que começava com o áudio gravado da entrevista do nosso candidato. Resultado: a nove dias das eleições, a pesquisa de maior credibilidade apontava empate técnico.

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Ainda não tínhamos recebido a última parte do nosso pagamento quando o candidato apareceu de improviso no nosso QG para jogar na cara do marqueteiro (que nos contratou) que a campanha que criávamos estava destruindo a sua candidatura. Que a partir de agora ele assumiria a criação dos programas e inserções. Que ele definiria o que deveria ser dito (como se fosse uma novidade). E que exigia que fossem trocados os redatores, que sistematicamente deixavam escapar em seus textos palavras com dois e às vezes até três ou quatro “erres”.

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Depois de um esforço desumano e da determinante ajuda do marqueteiro, consegui finalmente receber minha grana.

 

Cheguei em casa 5 dias antes do previsto. Minha mulher, vendo minha cara de cansaço, se limitou a perguntar: e o seu candidato, vai ganhar ou perder?

Refleti um pouco sobre “ganhar” e “perder” e percebi que as duas palavras tinham um “erre” no final. Então respondi a ela:

Me proibiram de falar, amor.

E o assunto foi encerrado.”




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