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Sexta-feira negra.

Sexta passada, eu acordei estranho. Com uma sensação de culpa e ao mesmo tempo uma necessidade de me libertar dessa culpa, mesmo não sabendo do que se tratava.

Saí do quarto com a cara meio amassada de um sono mal dormido e quase atropelei a Marilda que saía do banheiro puxando um balde e um esfregão. Ao olhar nos seus olhos, percebi que ali poderia estar a minha culpa e, consequentemente, a chance de me redimir.

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Imediatamente pensei em suas dificuldades, o filho doente, o marido desempregado… e resolvi ajudar. E saí logo disparando:

“Marilda, você está precisando de alguma coisa, uma ajuda?”

E ela disse:

“Como assim?”

“Sei lá… uma roupa pro seu marido , um tênis pro Pedrinho, um pouco de dinheiro… “

“Mas o senhor não está todo encalacrado aí com dívidas e contas pra pagar?”

”Isso não tem nada a ver, Marilda. Eu posso ajudar sim”.

“Mas como o senhor pode ajudar se não paga o condomínio há 5 meses?”

“É, não pago mesmo, mas ainda assim eu posso ajudar.”

” Sr Brain, dá um tempo, vai. O senhor por acaso já pagou a padaria do mês passado?”

“Não.”

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“E os 2 mil que o senhor pediu emprestado pra sua irmã?”

“Putz, ainda não.. tenho que ligar pro banco pra dar um jeito nisso.”

“Falando em banco, o senhor não fez outro empréstimo esse mês?”

“Foi, fiz sim.”

“E já não é o terceiro que o senhor faz de agosto pra cá?”

“Nada disso, é o segundo… não, é isso mesmo, é o terceiro sim, mas…”

“Sr Brain, me diga uma coisa: o que aconteceu com aquele quadro feio, cheio de bandeirinhas que tinha na sala?”

“O Volpi que eu ganhei do meu pai?… eu vendi, Marilda, precisava pagar a escola dos meninos que eu não pagava desde o ano passado… Sim, mas isso não importa. Você está precisando ou não de dinheiro ou de alguma coisa?”

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Não, Sr Brain, obrigada. O senhor já é bom demais comigo me dando emprego. Eu não preciso mesmo, obrigada.”

 

Ela fez um omelete e um suco de laranja pra mim e foi embora porque o último ônibus pro seu bairro já tava quase passando.

Ao entrar no quarto, notei um bilhetinho aparecendo por baixo do meu livro de cabeceira. Dentro do bilhete tinha uma nota de 100 reais e o textinho:

 

“Sr Brain, deixei isso pro sinhô. Pra ajudá. Eu tenho umas economia aí. Paguei até o meu aluguel adiantado já. Quando pudé o sinhô me paga.

Ah, num esquece de dá comida pro Bob. Eu comprei um pacoti de ração daquela mais baratinha.

FICA CUM DEUS.

Marilda.”

 

Como não tinha ninguém em casa pra ver a minha cara de idiota, amassei o bilhetinho, enfiei o dinheiro no bolso e abri o jornal pra ver as ofertas do Black Friday da Fast Shop. Tô precisando de uma TV maior pra ver a NFL sem óculos.

 

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Halloween, o terror dos nacionalistas.

Chega essa época de fim de outubro e eu ouço a mesma ladainha dos nacionalistas de plantão: “É um absurdo comemorarmos o Halloween e não a Festa do Saci, da Mula-sem-cabeça ou da Cuca.”  É mais ou menos a mesma coisa que detonar o Tim Maia por ter trazido a sonoridade da black music dos “states” e dizer que o brasileiro deveria ouvir sua música de raiz como o samba ou as Sertanílias de Elomar. Só que eles se esquecem de que o samba não foi criado por Caramuru e sim por uma mistura dos batuques africanos e das marchinhas europeias. E que a música erudita de Elomar está muita mais ligada às raízes árabes e mediterrâneas do que ao sertão da Bahia.

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Essa coisa de supervalorizar a cultura brasileira começou a tomar força de fato na Semana de Arte de São Paulo, no início do século passado. E rapidamente virou moda no meio intelectual. Aliás, a intelectualidade brasileira está muito mais sujeita a modismos do que a garotada que frequenta os barzinhos da zona sul do Rio ou o Shopping Iguatemi de São Paulo. Foi assim em 1922, em 1969 e agora, de 2010 pra cá, com a instituição do politicamente correto.

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O intelectual brasileiro, de classe média média, artista, professor universitário, defensor das minorias e torcedor do Flamengo, curte mesmo é andar de SUV, passar o inverno em Paris, frequentar o Baixo Leblon , ver o Chico no Canecão e usar um All Star de “Vans em quando”. Na verdade ele nem sabe se as cotas universitárias e a recuperação de infratores são pautas mais importantes do que a alimentação vegana. Mas insiste em igualdade e distribuição de rendas, esquecendo que um show do Chico não sai por menos de trezentão.

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Me desculpem, mas não é uma questão de desvalorizar a nossa cultura. Acontece que vivemos num mundo absolutamente globalizado e querer ser ultranacionalista numa época em que é mais fácil falar com quem está no Japão do que em Alvorada de Minas é no mínimo curioso. O que importa de fato é a liberdade, seja ela de expressão, de manifestação, de paixão ou de consumo.

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Que os nacionalistas sejam felizes com as suas exteriorizações e teorias.

Mas que não encham o saco das pessoas que curtem uma festinha de Halloween. Até porque aposto que no Natal eles vão comprar um presentinho pra mulher, pros filhos e pros amigos. Mesmo que alguém lembre que o Papai Noel na verdade se chama Santa Claus e que Jesus não nasceu em Belém do Pará.

E olha que eu nem falei do carnaval, hein.

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Desculpe o trocadilho, mas agora é o dono da agência que ROI o osso.

Uma notícia recente está movimentando o mercado publicitário. “Movimentando” é um termo muito suave. Que tal “Sacudindo”?

O McDonald’s acaba de trocar sua agência nos states. Até aí, sem novidades. Contas dançam com os mesmos passos e a mesma graça em qualquer lugar do mundo. Mas nesse caso, a coreografia parece ser inédita: a nova agência vai ser remunerada exclusivamente de acordo com os resultados dos negócios. Ou seja, se não associar o seu trabalho diretamente ao faturamento do cliente pode não receber nada. Isso mesmo: zero.

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Traduzindo: essa moleza de BV, Fee ou qualquer outro tipo de remuneração convencional está com os seus dias contados. Afinal, o que o cliente quer mesmo é que tudo seja contado: resultados, metas, métricas… o que acontece é que os diretores de marketing dos grandes players não pretendem mais empenhar um único centavo de seus budgets se não tiver a certeza absoluta de que esse centavo vai lhe trazer um retorno x. Até porque são os seus respectivos pescoços que estão ameaçados pela afiada lâmina contábil dos CEOs e presidentes. Entramos definitivamente na era do ROI (return on investiment). E isso vai mudar a história da Propaganda.

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Na minha despretensiosa opinião, existe o lado bom e o lado ruim.

O bom é que vai acabar de vez com a arrogância de alguns VPs de criação ou diretores de agências que acham que alguns leões de ouro de peças fantasmas lhes credenciam à genialidade ou à implacável solução criativa de todo e qualquer job. Como diz a matéria do Meio & Mensagem (link no final do texto), “O mercado de comunicação brasileiro é perigosamente colado aos aspectos puramente criativos da publicidade.”

Pois é, meu amigo. Se você ainda sonha em ser um profissional de criação, preste bastante atenção nas aulas de estatística, planejamento e pesquisa. E, se puder, faça cursos paralelos de economia, finanças e contabilidade. Criatividade deixou de ser um conceito subjetivo e passou a ser medido em cédulas. Verdes, de preferência.

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Acabou esse negócio de chegar numa reunião de apresentação e dizer que a campanha “X” dá prosseguimento ao imprescindível trabalho de branding planejado pela agência ou que a ação “Y”vai gerar buzz nas redes sociais etc etc etc.

Os novos e pragmáticos empresários descobriram do que o Google Analytcs e o Adwords são capazes. E depois que aprenderam a ler as métricas de sua fan page, acham que todo e qualquer esforço de comunicação deve ser transformado em números.

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O ruim é que nem tudo na comunicação pode (pelo menos com as ferramentas atuais) ser medido ou ter seu retorno quantificado. Conceitos subjetivos como ações de branding, para citar apenas um exemplo, só podem ser avaliados através de pesquisas, prática que os clientes abriram mão em função dos altos custos. Ou seja, a agência que se vire pra provar que a campanha “x” vai trazer retorno. Ou que pelo menos mostre no final que o investimento valeu cada centavo. Caso contrário, o cliente simplesmente não vai pagar.

Pois é, o romantismo da criatividade acabou. Só resta o sexo. Sexo pago. Pago, desde que comprovadamente traga prazer.

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Leia a matéria do M&M:

http://www.meioemensagem.com.br/home/opiniao/2016/10/14/a-publicidade-sem-roi-acaba-de-morrer-adapte-se-ou-junte-se-a-ela.html

 

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Era uma vez numa campanha política…

Como dizem os novos políticos, Olá minhas amigas e meus amigos!

Mil desculpas pelo sumiço, mas chegou um determinado momento em que minha conta bancária começou a me ameaçar de morte então eu tive que arregaçar as mangas e aceitar a proposta de atuar como redator em uma campanha política. Eu costumo dizer que existem mil maneiras de você se prostituir, mas a campanha política certamente é a menos prazerosa na hora do sexo e a mais interessante na hora do pagamento. Na verdade, já foi bem mais interessante financeiramente. Com as novas regras de doações de verba de empresas e particulares, os salários deram uma boa despencada, o que tornou o “sexo” ainda mais doloroso. Ou dolorido.

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O maior desconforto é o fato de você ter que se dedicar ao trabalho com uma intensidade absurda, provocando jornadas de até 18 horas diárias de uma labuta que sugere rima (desculpem a indelicadeza, mas quem já trabalhou nisso sabe do que eu estou falando)

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Ou seja, não tive a menor chance de escrever um artigo sequer. Mas, já que a política foi a grande responsável pela ausência temporária do Blog do Brain, o assunto de hoje evidentemente será “política”. Na verdade será sobre a experiência de um outro redator, grande amigo meu, em uma campanha para prefeito de uma cidade do interior do estado do Pará, contada por ele mesmo:

 

“A campanha já começou estranha quando o candidato entrou em nossa sala pela primeira vez e falou para que não escrevêssemos em seus textos palavras com “erre” porque ele tinha língua presa e não as pronunciaria bem.

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Aí eu imediatamente imaginei o tamanho da dificuldade de uma missão com tal complexidade (curiosamente essa frase que eu acabei de escrever não tem nem um “erre”, o que demonstra que era possível sim atender ao pedido do candidato, pelo menos parcialmente)

Como não havia tempo suficiente para contratarmos um fonoaudiólogo, tivemos que encarar a missão.

Cinco dias depois, sai a primeira pesquisa: estamos 15 pontos à frente do segundo colocado, um sujeito bonitão, bem articulado e que pronunciava os erres de uma maneira clara, enfática,  vibrante, sonora (o marketing e suas geniais investidas em tendões de Aquiles superexpostos ). Foi o início de um evidente viés de baixa.

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Tudo caminhava relativamente mais ou menos quando a comitiva do candidato (que, é bom deixar claro, não nutria a mínima simpatia pela galera do marketing) apareceu com uma mulher bonita, elegante, dos seus quarenta e tantos anos, e que exalava um forte aroma de sexualidade e poder.

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Nos foi apresentada como uma ex-deputada estadual reverenciada na cidade e responsável pelos maiores benefícios que o município obteve em toda sua história. A ordem era gravar imediatamente um depoimento seu apoiando o nosso candidato, editá-lo e incluí-lo no programa que ia ao ar ainda de noite. Sem ter tempo para pesquisar a história política da ex-deputada, executamos a ordem com a tradicional velocidade de quem escreve no computador com a pressão de uma faca na lateral do pescoço.

No dia seguinte, o candidato rival entra no ar com um vídeo de 6 anos atrás, onde a tal mulher acusava o nosso candidato de assédio sexual e violência. Teriam sido adversários políticos nessa época e, com a mudança de partido de ambos, agora se tornavam aliados… coisas da política. Resultado: 8 pontos a menos na pesquisa na semana seguinte.

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Tudo caminhava relativamente mal quando o nosso candidato participou de uma entrevista na principal rádio da cidade. Inesperadamente (pra nós do marketing, é claro) ele disse (numa mistura de língua presa com língua solta) que teria acertado com empresários americanos a chegada de uma grande indústria de celulose para ser instalada na área rural da cidade (entenda-se floresta amazônica). No dia seguinte, o candidato rival entrou com um programa exclusivamente sobre meio ambiente e que começava com o áudio gravado da entrevista do nosso candidato. Resultado: a nove dias das eleições, a pesquisa de maior credibilidade apontava empate técnico.

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Ainda não tínhamos recebido a última parte do nosso pagamento quando o candidato apareceu de improviso no nosso QG para jogar na cara do marqueteiro (que nos contratou) que a campanha que criávamos estava destruindo a sua candidatura. Que a partir de agora ele assumiria a criação dos programas e inserções. Que ele definiria o que deveria ser dito (como se fosse uma novidade). E que exigia que fossem trocados os redatores, que sistematicamente deixavam escapar em seus textos palavras com dois e às vezes até três ou quatro “erres”.

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Depois de um esforço desumano e da determinante ajuda do marqueteiro, consegui finalmente receber minha grana.

 

Cheguei em casa 5 dias antes do previsto. Minha mulher, vendo minha cara de cansaço, se limitou a perguntar: e o seu candidato, vai ganhar ou perder?

Refleti um pouco sobre “ganhar” e “perder” e percebi que as duas palavras tinham um “erre” no final. Então respondi a ela:

Me proibiram de falar, amor.

E o assunto foi encerrado.”

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A grande façanha dos youtubers

Que as pessoas estão cada vez mais rasas, desinteressantes e sem bagagem, não é novidade pra ninguém. Nem mesmo para as próprias. Aliás, elas se assumem como pessoas visuais, que preferem a imagem ao texto. Que não têm paciência para ler mais do que 5 ou 6 linhas.

Que preferem os livros para colorir, o cinema de vampiros e transformers, os dramalhões das novelas, os sertanejos universitários, os funks, os arrochas e os wesley safadões.

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Que têm o universo inteiro na tela do seu computador ou smart phone, mas escolhem caçar monstrinhos virtuais no quintal do vizinho.

Que preferem escrever “nada haver” do que perder 5 segundos no Google para corrigir o erro grosseiro que acabam publicando.

Que adotam, sem embasamento algum, posturas políticas, sociais e científicas apenas porque os seus amigos (igualmente obtusos) defendem radicalmente.

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Mas o que realmente assusta os sociólogos, psicólogos e estudiosos dos novos fenômenos da comunicação é a capacidade que essas pessoas têm de endeusar as web personalidades. Estou falando especialmente dos youtubers que produzem vídeos sem conteúdo nenhum mas que acabam conquistando milhões de visualizações e, por incrível que pareça, milhares de reais em suas contas bancárias.

Pessoas comuns, que de um dia para o outro começam a gravar vídeos caseiros sem roteiro, sem produção, sem conteúdo e, na maioria das vezes, sem graça nenhuma. Mas que assim mesmo conseguem arrebanhar uma multidão de seguidores, ao ponto de serem reconhecidos e cercados na rua por dezenas de adolescentes “de 30 anos de idade” para que autografem suas camisetas.

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E o fanatismo é tão absurdo que esses “produtores” de vídeo acabaram se transformando em web influencers. Não entendeu? Eu vou explicar: esses caras, sem graça, sem talento e sem o mínimo preparo intelectual, se tornaram mega stars da internet e hoje influenciam diretamente o comportamento de jovens (e muitos não tão jovens assim).

E, como não podia ser diferente, as grandes marcas logo começaram a investir nos canais desses meninos, atrás do seu grande público de seguidores. O que, diga-se a verdade, acabou até melhorando a qualidade dos seus vídeos (mas nada que os tornasse interessantes).

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Muitos vão ler esse artigo e me chamar de velho, desatualizado, ultrapassado, entre outros “elogios”.  Mas, sinceramente, eu prefiro ser tachado de antigo do que assistir Marcela Tavarez enfiar laranjas no sutiã e cagar regrinhas simples de português como se fosse a erudita da internet. Ou ter que ver um vídeo do Whindersson Nunes dançando de cueca e falando das suas experiências tristes da infância. Ou aguentar as piadinhas bisonhas da Kéfera se achando muito mais engraçada do que o Marco Luque e os seus sensacionais personagens (que por sinal têm menos seguidores do que a menina).

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Ok, ok… eu posso até não ser moderninho. Mas também não sou burrinho.

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Heavy user? Que porra é essa?

Falar “budget” no lugar de orçamento, “business” no lugar de negócio, “feedback” no de retorno ou “brand” querendo dizer marca… me perdoem, mas pra mim isso é pura arrogância.

Nas minhas veias não corre um pingo de patriotismo, mas sinceramente acho o fim da picada você ter que usar termos em inglês (ou qualquer outra língua que seja) para se comunicar.

Cá entre nós, a maioria das pessoas hoje beira a imbecilidade, tendo sérias dificuldades em se expressar em português, mas insiste em usar palavras e frases em inglês, especialmente no ambiente de trabalho, onde impera o marquetês e sua linguagem idiotizante.

 

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Como assim, idiotizante?

Muito bem, você por um acaso acha normal falar “influencers” no lugar de influentes ou influenciadores?… ou ainda objectives pra dizer objetivos? Sem falar em “mission”, “product”, “strategies” ou “public relations”. O que há de errado em falar missão, produto, estratégias ou relações públicas? Convenhamos, é boçalidade demais.

Alguns acham charmoso, outros elegante (como no início do século passado, quando a moda era usar palavras em francês)…

 

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…outros até argumentam que tecnicamente alguns estrangeirismos se comportam melhor em determinadas situações. Mas, o que acontece na prática é a simples substituição de termos e conceitos pelo que o mercado internacional definiu como linguagem padrão (como se todas as empresas brasileiras operassem no mercado internacional (sic)). Me desculpem, mas se o interlocutor não conhece o português e não tem um intérprete, aí sim deve-se usar o inglês. Caso contrário, por que não preservar a nossa língua?

 

 

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O brasileiro tem essa péssima mania de querer falar a língua do estrangeiro quando ele (o estrangeiro) está aqui no Brasil. O que pra mim é um absurdo. Se você for a trabalho para a França, ninguém vai falar em português com você. Nem na Espanha, onde as línguas se assemelham. Por que então falar francês quando um francês vem pra cá… ou até mesmo usar o inglês com algum empresário americano? Ele que se foda e pague um intérprete pra conversar com a gente. Se ele está aqui é porque tem interesse econômico ou financeiro… então, que assuma os seus custos. Temos que acabar com esse complexo de vira lata.

 

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Uma cena patética que vemos com frequência na televisão é nas entrevistas de jogadores de futebol argentinos, chilenos ou de algum outro lugar da América Latina, onde os nossos repórteres insistem em falar com eles em espanhol… só que acabam usando um portunhol vergonhoso. E o mais engraçado é que o jogador também tenta falar em português, o que deixa a conversa mais parecida com o esperanto. O jogador está certo, ele tem que falar a língua do país onde ele está. Já os repórteres… lamentável.

 

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Ok, ok, o inglês é a língua universal. Mas não esqueça que isso pode e deve acabar. Não vejo nenhum absurdo em prever que o mandarim e o espanhol rebaixem o inglês para a segunda divisão. Aí já pensou você ter que aprender termos em chinês só pra poder se adaptar ao novo marquetês? (eu ia rir muito, mas infelizmente não vou ver essa cena)

 

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Acho que todo mundo deve aprender outras línguas, até porque são necessárias quando você viaja para outros países. Mas aqui no Brasil, me desculpem, temos que ligar o “foda-se”…  e não o “fuck yourself”.

 

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Nesse momento do texto eu fiz uma pausa e pensei “será que eu nunca usei nenhum termo em inglês (ou outra língua qualquer) em alguma crônica ou artigo que eu escrevi aqui no meu blog?”

 

Fui então dar uma olhadinha. Olha só o que eu encontrei:

“cool”, “social media”, “web”, “fan page “, “target”, “look”, “inserts”, “offline”, “punch”, “budget”, “job”, “smart”, ”merchandising”, “happy”, “home office” e até um “pièce de résistance”.

 

Como diz o status do facebook: se sentindo um perfeito idiota (ou, como queiram, “a perfect  idiot”).

 

Aí eu lembrei que o meu nome é Brain (por que, mamãe… por que?)

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McDonald’s na caça dos caçadores de Pokémon.

O McDonald’s acaba de anunciar que os seus restaurantes no Japão terão localização patrocinada no Pokémon GO.

A marca é a primeira a investir no jogo que virou febre mundial em apenas 15 dias.

 

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Enquanto milhares de adolescentes gastam tempo e dinheiro caçando monstrinhos pelo celular, o McDonald’s enriquece fazendo essa galera engolir seus sanduíches suspeitos.

 

Leia a matéria aqui:

http://bit.ly/29W2xGp

 

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A Ressaca II

Sexta passada, arrisquei mais um happy hour. Fui sozinho, como sempre. Ou seja, nada tão happy assim.

Dessa vez, escolhi um barzinho mais popular, com cerveja de 600ml. Cerveja comum. Lá, a única coisa artesanal era um hippie argentino vendendo pulseira de miçangas na porta.

Sentei e pedi o cardápio. A Original era 1 real mais cara que a Brahma. Resolvi cometer essa extravagância e pedi uma gelada e um frango à passarinho.

 

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O garçom já chegou me chamando pelo nome:

– Seu Meireles, quanto tempo o senhor não aparece.

Pra quem ainda não sabe, meu nome é Brain… e eu nunca tinha pisado nesse boteco. Mas fingi que era o tal Meireles. De repente eu ganhava uma saideira ou uma porção mais caprichada, vai saber.

O lugar, apesar de ter mesa de madeira com cadeira de plástico, até que estava bem frequentado. Umas quatro ou cinco mesas com garotas bonitas e rapazes bem vestidos. Sabe como é… happy hour, nessa crise, só é “happy” se for barato. A única coisa que não mudou foi a “hour”.

E lá vem o garçom com a Original e a intimidade:

– Seu Meireles, tá aqui sua gelada. O senhor está sozinho hoje?

 

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Confirmei com a cabeça e um sorriso amarelo-cerveja.

Dois minutos depois, aparece o garçom trazendo pelo braço um outro cliente:

– Seu Meirelles, o Afonso queria lhe conhecer. Eu sempre falo do senhor pra ele.

PQP, definitivamente eu não dou sorte em happy hours.

O Afonso puxou uma cadeira e em menos de 5 minutos já tinha contado 50% das suas aventuras como empresário local falido. Pedi licença ao “novo amigo” e fui fazer xixi na tentativa de ganhar tempo e pensar em alguma estratégia de fuga. Naquele ambiente pestilento, de 1m por 1m, eu só conseguia pensar em voltar pra mesa. Os 5 minutos com o Afonso me pareceram encantadores, comparando com os 30 segundos do banheiro fedorento.

 

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Sentei e recebi logo uma pergunta nos peitos:

_ Meireles, você faz o que da vida?

Pensei em mil atividades e profissões, mas não consegui ser criativo o suficiente pra mentir:

– Sou publicitário, mas trabalho em casa… home office.

Ele torceu o nariz e fuzilou:

– A publicidade destruiu o meu negócio. Quer dizer, não foi bem a publicidade. Eu vou explicar.

Caramba, mais uma DR profissional, não acredito. Lembrei na hora do que eu escrevi no blog na semana passada (http://blogdobrain.com.br/a-ressaca-de-um-ex-publicitario/) . Liguei o radar e comecei a prestar a atenção em tudo. Seria a matéria-prima para essa crônica que vocês estão lendo agora.

O Afonso então colocou o cinto, virou a chave, arrumou o retrovisor, engatou a primeira e pisou fundo:

– Eu tinha um negócio lucrativo e fazia bastante publicidade. Em televisão, no rádio, outdoor… eu tava pensando até em investir em internet, todo mundo dizia que era baratinho. Aí, descobri que a minha agência de publicidade ganhava 20% do que eu pagava pra TV, pro rádio, pra tudo. Fiquei indignado. Eles eram criativos e tal, sabiam fazer coisas legais e conseguiam vender meu produto. Mas 20% era muita grana. Aí resolvi negociar direto com os veículos. Resultado: comecei a gastar 20% a menos com propaganda.

Dei então uma interrompida só pra ele recuperar o fôlego:

– Aí sua empresa cresceu.

 

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Ele encheu o copo com a Brahma que tinha trazido de sua mesa, deu um gole pequeno pra não molhar o bigode e continuou:

– Porra nenhuma. Foi aí que desandou tudo. Os veículos começaram a criar a minha própria propaganda e o meu produto passou a vender cada vez menos. Quando eu percebi, já era tarde. Tive que fechar.

Passamos mais umas duas horas divertidas, falando mal de uma porção de gente da área. De repente, o Afonso apoiou suavemente a mão no meu ombro e falou:

– Meireles, foi um prazer te conhecer… mas eu preciso ir embora. Posso pedir a conta?

Ao chegar a dolorosa, percebi o Afonso colocando uma gorjeta no bolso do garçom e falando baixinho no seu ouvido:

– Aí estão os seus 10%, meu amigo. Pago separado porque você merece.

Me levantei, sorri pro Afonso e dei nele um abraço sincero e demorado.

Em casa, assistindo Sexytime no Multishow, eu pensei: “propaganda é foda.”

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Hoje, até o bolo publicitário é gourmet.

Eu não gosto de programa de culinária, nem mesmo do tipo reality show. Mas sou minoria. As mulheres amam e os homens descobriram que com dois cliques no controle remoto dá pra esquecer um pouco o 539 e experimentar o 541. Tudo bem, existe audiência, tenho que admitir… mas precisa ter tanto programa assim?

Olha só a listinha:

Master Chef e Dia a Dia Receita Minuto, na Band;

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Ana Maria Braga, Estrelas e Bem Estar Alimentação, na Globo;

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Hoje em Dia Receitas, na Record;

Melhor Pra Você, na Rede TV;

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Que Marravilha, Que Marravilha Chefinhos, Que Marravilha Chato pra Comer, Diário de Olivier, Food Truck – A Batalha, Mão na Massa, Cozinha Sob Pressão, The Taste Brasil, Bela Cozinha, Receitas da Carolina, Que Seja Doce, Tempero de Família, A Cozinha Caseira de Annabel, Cozinha Mediterrânea, Cozinha Prática – Rita Lobo, Viagem Gastronômica, Nigella, Receitas do Chuck, GNT Receitas, Cozinheiros em Ação e Programa da Palmirinha, no GNT.

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Fora aqueles onde a culinária não é pièce de résistance, tipo “Você Bonita – Receitas”, “Canal Bem Simples Receitas” ou “Todo Seu – Ronnie Von Gastronomia” (e eu sei que tem mais, só não tive paciência de ficar fuçando no Google.)

Agora imagina como deve ficar doidinho o mídia na hora de fatiar a verba do cliente.

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Pra ser sincero, tem um programa de culinária no Canal Brasil que eu adoro. Até porque a praia dele é justamente desconstruir essa onda gourmet que se instalou no cérebro dos videotas (calma, calma, “videota” não tem nada a ver com idiota do vídeo….significa, na verdade, viciado em TV). Quem ainda não viu, é só clicar no vídeo abaixo. Larica Total, a cozinha verdade:

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A ressaca de um ex-publicitário.

Sexta passada, resolvi tomar uma cerveja no happy hour de um desses barzinhos metidos a besta do Gonzaga (na hora que veio a conta, percebi que o metido a besta na verdade era eu).

O garçom, supereducado, me indicou uma mesa de canto. Pedi uma Original e uma porção de fritas. Na mesa ao lado, um outro frequentador solitário pedia uma dose de Black.

O sujeito, de uns cinquenta e poucos, me encarou por uns 10 segundos e disparou com a naturalidade etílica de quem já passava da terceira dose: “Você sempre se veste assim, com esse chapeuzinho estranho e essa gravata borboleta de Jerry Lewis?”

 

 

(eu nem lembrava mais do Jerry Lewis, mas achei divertido quando vi no Youtube no dia seguinte)

E não é que o sujeito se levantou e veio sentar na minha mesa…

Eu logo pensei “PQP, vou ter que aguentar esse mala”. Mas, pra minha surpresa, o tipo era engraçado pacas e cheio das historiazinhas criativas.

O garçom, sempre atencioso, me trouxe a terceira garrafinha de 300ml. Foi quando descobri que o cara que sentou na minha mesa era publicitário. Sinceramente eu não sei se na hora eu fiquei triste ou feliz. Mas o sujeito acabou se mostrando mais Original do que a minha cerveja…então relaxei.

Quando ele soube que eu escrevia sobre propaganda, não parou mais de falar sobre o assunto. Aí eu liguei o meu radar e comecei a anotar mentalmente o que ele falava, já pensando na próxima crônica.

 

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Foi quando ele disse que já tinha sido dono de uma agência de publicidade, mas que a tinha fechado há alguns anos porque os clientes começaram a querer negociar os honorários de veiculação da agência.

Pedi pra que ele falasse mais sobre o assunto (e pro garçom, eu pedi a sexta garrafinha). Ele então esvaziou o copo, afrouxou o nó da gravata e começou a desfiar o novelo da sua vida empresarial:

– Brian, é o seguinte (eu tentei a noite inteira fazer com que esse homem me chamasse de Brain, mas não teve jeito). Os veículos de comunicação me “estreparam” (ele usou um termo impublicável, tive que achar um sinônimo). Minha agência ia bem e tal. Mas de repente as TVs, rádios e outros veículos passaram a faturar o honorário das agências separado do valor total da veiculação.

Aí me fiz de desentendido e quis saber dos detalhes:

– Como assim?

 

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Ele sorriu com o canto da boca como quem pensa “Ô sujeitinho ignorante, escreve sobre propaganda e nem sabe o que é honorário?” e continuou:

– É o seguinte: imagine que veicular um comercial na TV custe 10 mil reais. Pois bem, o veículo cobra os 10 mil do cliente e repassa 2 mil (que são os tradicionais 20% de honorário) para a agência. Acontece que os veículos emitiam uma nota de 10 mil para o cliente e pagavam imposto sobre o valor total, quando na verdade ficavam com apenas 80% do valor da veiculação. Eles então, fazendo economia de palito, resolveram faturar separado: 80% do valor para o cliente e 20% para a agência. Acontece que o cliente, mesmo sabendo que a agência sobrevive de honorários, achou um absurdo ter que pagar 20% para a agência. E imaginou que se negociasse direto com o veículo economizaria esses 20%. A partir de então, muitos clientes dispensaram as suas agências, abrindo mão da qualidade profissional e criativa. Ou seja, os veículos nos “estreparam” (de novo o sinônimo).

Ele falava aquilo com um misto de raiva e desabafo, apertando o meu ombro como se eu fosse o gerente comercial da Globo ou da Record.

 

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Depois de mais algumas doses e vários podres profissionais (que podem ser assunto para uma próxima crônica), ele deu um tapa nas minhas costas e falou:

– Bora fechar essa conta aí que eu já bebi… e falei demais.

E pediu duas saideiras e a conta. O garçom, com a rapidez de sempre, trouxe a bebida e falou que a conta chegava num instante.  Três minutos depois, aparece o proprietário dizendo:

– Aqui está a conta de vocês. Tá sem os 10% do garçom. Eu já pago salário pra ele.

O meu parceiro de happy hour olhou pra mim, olhou pro proprietário, respirou fundo e disparou:

– enfia esses 10% no…