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A Ressaca II

Sexta passada, arrisquei mais um happy hour. Fui sozinho, como sempre. Ou seja, nada tão happy assim.

Dessa vez, escolhi um barzinho mais popular, com cerveja de 600ml. Cerveja comum. Lá, a única coisa artesanal era um hippie argentino vendendo pulseira de miçangas na porta.

Sentei e pedi o cardápio. A Original era 1 real mais cara que a Brahma. Resolvi cometer essa extravagância e pedi uma gelada e um frango à passarinho.

 

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O garçom já chegou me chamando pelo nome:

– Seu Meireles, quanto tempo o senhor não aparece.

Pra quem ainda não sabe, meu nome é Brain… e eu nunca tinha pisado nesse boteco. Mas fingi que era o tal Meireles. De repente eu ganhava uma saideira ou uma porção mais caprichada, vai saber.

O lugar, apesar de ter mesa de madeira com cadeira de plástico, até que estava bem frequentado. Umas quatro ou cinco mesas com garotas bonitas e rapazes bem vestidos. Sabe como é… happy hour, nessa crise, só é “happy” se for barato. A única coisa que não mudou foi a “hour”.

E lá vem o garçom com a Original e a intimidade:

– Seu Meireles, tá aqui sua gelada. O senhor está sozinho hoje?

 

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Confirmei com a cabeça e um sorriso amarelo-cerveja.

Dois minutos depois, aparece o garçom trazendo pelo braço um outro cliente:

– Seu Meirelles, o Afonso queria lhe conhecer. Eu sempre falo do senhor pra ele.

PQP, definitivamente eu não dou sorte em happy hours.

O Afonso puxou uma cadeira e em menos de 5 minutos já tinha contado 50% das suas aventuras como empresário local falido. Pedi licença ao “novo amigo” e fui fazer xixi na tentativa de ganhar tempo e pensar em alguma estratégia de fuga. Naquele ambiente pestilento, de 1m por 1m, eu só conseguia pensar em voltar pra mesa. Os 5 minutos com o Afonso me pareceram encantadores, comparando com os 30 segundos do banheiro fedorento.

 

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Sentei e recebi logo uma pergunta nos peitos:

_ Meireles, você faz o que da vida?

Pensei em mil atividades e profissões, mas não consegui ser criativo o suficiente pra mentir:

– Sou publicitário, mas trabalho em casa… home office.

Ele torceu o nariz e fuzilou:

– A publicidade destruiu o meu negócio. Quer dizer, não foi bem a publicidade. Eu vou explicar.

Caramba, mais uma DR profissional, não acredito. Lembrei na hora do que eu escrevi no blog na semana passada (http://blogdobrain.com.br/a-ressaca-de-um-ex-publicitario/) . Liguei o radar e comecei a prestar a atenção em tudo. Seria a matéria-prima para essa crônica que vocês estão lendo agora.

O Afonso então colocou o cinto, virou a chave, arrumou o retrovisor, engatou a primeira e pisou fundo:

– Eu tinha um negócio lucrativo e fazia bastante publicidade. Em televisão, no rádio, outdoor… eu tava pensando até em investir em internet, todo mundo dizia que era baratinho. Aí, descobri que a minha agência de publicidade ganhava 20% do que eu pagava pra TV, pro rádio, pra tudo. Fiquei indignado. Eles eram criativos e tal, sabiam fazer coisas legais e conseguiam vender meu produto. Mas 20% era muita grana. Aí resolvi negociar direto com os veículos. Resultado: comecei a gastar 20% a menos com propaganda.

Dei então uma interrompida só pra ele recuperar o fôlego:

– Aí sua empresa cresceu.

 

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Ele encheu o copo com a Brahma que tinha trazido de sua mesa, deu um gole pequeno pra não molhar o bigode e continuou:

– Porra nenhuma. Foi aí que desandou tudo. Os veículos começaram a criar a minha própria propaganda e o meu produto passou a vender cada vez menos. Quando eu percebi, já era tarde. Tive que fechar.

Passamos mais umas duas horas divertidas, falando mal de uma porção de gente da área. De repente, o Afonso apoiou suavemente a mão no meu ombro e falou:

– Meireles, foi um prazer te conhecer… mas eu preciso ir embora. Posso pedir a conta?

Ao chegar a dolorosa, percebi o Afonso colocando uma gorjeta no bolso do garçom e falando baixinho no seu ouvido:

– Aí estão os seus 10%, meu amigo. Pago separado porque você merece.

Me levantei, sorri pro Afonso e dei nele um abraço sincero e demorado.

Em casa, assistindo Sexytime no Multishow, eu pensei: “propaganda é foda.”




2 comentários sobre “A Ressaca II

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