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A ressaca de um ex-publicitário.

Sexta passada, resolvi tomar uma cerveja no happy hour de um desses barzinhos metidos a besta do Gonzaga (na hora que veio a conta, percebi que o metido a besta na verdade era eu).

O garçom, supereducado, me indicou uma mesa de canto. Pedi uma Original e uma porção de fritas. Na mesa ao lado, um outro frequentador solitário pedia uma dose de Black.

O sujeito, de uns cinquenta e poucos, me encarou por uns 10 segundos e disparou com a naturalidade etílica de quem já passava da terceira dose: “Você sempre se veste assim, com esse chapeuzinho estranho e essa gravata borboleta de Jerry Lewis?”

 

 

(eu nem lembrava mais do Jerry Lewis, mas achei divertido quando vi no Youtube no dia seguinte)

E não é que o sujeito se levantou e veio sentar na minha mesa…

Eu logo pensei “PQP, vou ter que aguentar esse mala”. Mas, pra minha surpresa, o tipo era engraçado pacas e cheio das historiazinhas criativas.

O garçom, sempre atencioso, me trouxe a terceira garrafinha de 300ml. Foi quando descobri que o cara que sentou na minha mesa era publicitário. Sinceramente eu não sei se na hora eu fiquei triste ou feliz. Mas o sujeito acabou se mostrando mais Original do que a minha cerveja…então relaxei.

Quando ele soube que eu escrevia sobre propaganda, não parou mais de falar sobre o assunto. Aí eu liguei o meu radar e comecei a anotar mentalmente o que ele falava, já pensando na próxima crônica.

 

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Foi quando ele disse que já tinha sido dono de uma agência de publicidade, mas que a tinha fechado há alguns anos porque os clientes começaram a querer negociar os honorários de veiculação da agência.

Pedi pra que ele falasse mais sobre o assunto (e pro garçom, eu pedi a sexta garrafinha). Ele então esvaziou o copo, afrouxou o nó da gravata e começou a desfiar o novelo da sua vida empresarial:

– Brian, é o seguinte (eu tentei a noite inteira fazer com que esse homem me chamasse de Brain, mas não teve jeito). Os veículos de comunicação me “estreparam” (ele usou um termo impublicável, tive que achar um sinônimo). Minha agência ia bem e tal. Mas de repente as TVs, rádios e outros veículos passaram a faturar o honorário das agências separado do valor total da veiculação.

Aí me fiz de desentendido e quis saber dos detalhes:

– Como assim?

 

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Ele sorriu com o canto da boca como quem pensa “Ô sujeitinho ignorante, escreve sobre propaganda e nem sabe o que é honorário?” e continuou:

– É o seguinte: imagine que veicular um comercial na TV custe 10 mil reais. Pois bem, o veículo cobra os 10 mil do cliente e repassa 2 mil (que são os tradicionais 20% de honorário) para a agência. Acontece que os veículos emitiam uma nota de 10 mil para o cliente e pagavam imposto sobre o valor total, quando na verdade ficavam com apenas 80% do valor da veiculação. Eles então, fazendo economia de palito, resolveram faturar separado: 80% do valor para o cliente e 20% para a agência. Acontece que o cliente, mesmo sabendo que a agência sobrevive de honorários, achou um absurdo ter que pagar 20% para a agência. E imaginou que se negociasse direto com o veículo economizaria esses 20%. A partir de então, muitos clientes dispensaram as suas agências, abrindo mão da qualidade profissional e criativa. Ou seja, os veículos nos “estreparam” (de novo o sinônimo).

Ele falava aquilo com um misto de raiva e desabafo, apertando o meu ombro como se eu fosse o gerente comercial da Globo ou da Record.

 

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Depois de mais algumas doses e vários podres profissionais (que podem ser assunto para uma próxima crônica), ele deu um tapa nas minhas costas e falou:

– Bora fechar essa conta aí que eu já bebi… e falei demais.

E pediu duas saideiras e a conta. O garçom, com a rapidez de sempre, trouxe a bebida e falou que a conta chegava num instante.  Três minutos depois, aparece o proprietário dizendo:

– Aqui está a conta de vocês. Tá sem os 10% do garçom. Eu já pago salário pra ele.

O meu parceiro de happy hour olhou pra mim, olhou pro proprietário, respirou fundo e disparou:

– enfia esses 10% no…




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