2151428369_afcf46dc61_z

A Realidade Diminuída.

Uma ação da Heineken viralizada essa semana com o vídeo “The Cliché” foi unanimidade nas redes sociais como peça criativa e inovadora. Sem dúvida, a ideia é muito boa. Mas logo na primeira vez que assisti, o vídeo me incomodou e muito… a ponto de eu recorrer à velha máxima de que uma produção ruim pode estragar até uma ideia fantástica. Só que nesse caso específico aconteceu um pouco diferente: uma ideia fantástica foi estragada por uma produção perfeita. Perfeita demais.

Como quase todos os bons títulos de anúncios já foram feitos, assim como praticamente todas as grandes ideias de filmes já foram percorridas, ficou muitíssimo difícil ser criativo na mídia offline. Soma-se a isso a crise, que reduziu drasticamente o investimento em produção e mídia, e o conservadorismo histórico dos clientes, que abrem mão da ousadia para manter suas suspeitas zonas de conforto, a saída das agências foi direcionar os seus cérebros privilegiados para as ações que envolvem experiências com o público e a viralização dos resultados dessas ações nas redes sociais (alternativas criativamente pouco exploradas e, é claro, bem mais baratas).

8495028329_8fba64e399_z

Resultado: uma enxurrada de vídeo-cases de ações de marca sendo compartilhados na internet, onde a tônica é sempre registrar em vídeo a reação das pessoas diante de uma situação inusitada em seu dia a dia. Acontece que nem sempre a reação das pessoas é a mesma que imaginam os ”cérebros privilegiados” que criam essas ações. Ou seja, na hora que a “câmera escondida” tenta registrar aquela expressão de surpresa ou de profunda emoção que as pessoas teoricamente teriam diante da situação imaginada, muitas vezes elas acabam reagindo de uma forma diferente, que não estava prevista no roteiro. Ou simplesmente não reagem com a intensidade que se esperava e que daria o tom ideal ao vídeo que está sendo captado pelas câmeras ocultas. Claro, são pessoas comuns, reagem conforme sua natureza, cada uma com o seu comportamento peculiar. Seria necessário filmar dezenas, centenas delas para se ter algo “próximo” do resultado esperado. E como esse processo consome tempo e acima de tudo dinheiro, a agência de publicidade sempre procura “dar um jeitinho” de resolver o problema “falseando levemente” a produção. Já sabendo da dificuldade, a agência costuma contratar atores para “reagirem” exatamente do jeito que o roteiro indica. Ou seja, na maioria esmagadora das vezes, o que vemos na internet (quando assistimos a um vídeo desses) é a interpretação de pessoas que já conhecem o roteiro e que são pagas para ter a reação “x” ou “y” e assim resolver o problema do vídeo.

15820238637_0d7a2855af_c (1)

Acontece que esse tipo de vídeo se caracteriza justamente por seu tom realista, pelo fato de registrar reações verdadeiras (e inesperadas) de pessoas comuns… diante de uma situação qualquer. Ou seja, você que assiste, e que ainda elogia fervorosamente a criatividade da peça, na verdade está sendo enganado, ludibriado pela esperteza desses publicitários que estão interessados apenas em fazer peças inusitadas e com elas ganhar prêmio e promoção profissional.

shutterstock_312215141

 

E essa manipulação da realidade foi exatamente o que aconteceu com o vídeo da Heineken que eu comentei lá em cima, no início do artigo. A cervejaria, através de sua agência de publicidade, contratou atores para reagirem à ação como se fossem pessoas comuns. E nesse caso específico ainda usaram planos de enquadramento e outras técnicas de filmagem claramente profissionais, em vez de optar pela câmera casual, com cara de escondida, procurando revelar uma imagem autêntica. Nada disso. O interesse nitidamente era fazer a “produção perfeita”, não se preocupando com a veracidade da história. Uma produção perfeita… para perfeitos idiotas como nós.

link do vídeo da Heineken: https://www.youtube.com/watch?v=wrmKl_HV4-A




Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *