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Terceirização. Qual é o tamanho desse monstro?

O assunto do momento é a aprovação do projeto de lei que autoriza o trabalho terceirizado de forma irrestrita.

Independente de ser uma bandeira do governo na busca de um resultado favorável com a suposta criação de uma grande frente de trabalho (que lhe traria méritos e méritos), o tema é quase uma unanimidade: vai ser uma merda para o povo. Afinal, é a perda de direitos até então intocáveis dos trabalhadores: décimo terceiro, férias, fundo de garantia etc.

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Não que os empregados corram o risco de perder esses benefícios em seus trabalhos, não. O que eles podem perder de fato são os próprios empregos, afinal é bastante tentador para o empregador substituir funcionários que lhe custam praticamente o dobro, segundo as regras da CLT, por terceirizados que lhe custarão apenas e tão somente o valor do salário. Sem contar que, como o índice de desemprego é alto, é muito fácil contratar profissionais por soldos menores até do que a média do mercado.

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Mas não se deve demonizar os empregadores por essa prática aparentemente prejudicial e insensível. Não esqueçam que a grande maioria dos empresários sofre com os altíssimos impostos e o custo mastodôntico de se manter uma empresa sem a prática do caixa 2 ou de qualquer outra forma de sonegação. Os empresários que se beneficiam com grandes contratos do governo, ou outras vantagens escusas, são na verdade uma seleta minoria, representada basicamente por grandes banqueiros, construtores e milionários de outros setores que têm por hábito trocar gentilezas com os caciques do planalto.  O fato é que mais de 99% dos empregadores mal conseguem manter suas empresas no azul, especialmente em tempos de crise como o atual.

Mas também não me parece justo beneficiar empresários, mesmo que estes estejam atolados na merda. Até porque estão atolados apenas até o joelho, enquanto povo já tem dificuldade de respirar.

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Mas o assunto dessa postagem não é calcular qual parcela da população vai ser mais prejudicada com a lei. Como também não é foco saber se ela é fruto do interesse do governo ou não. Até porque esse é um projeto que foi idealizado lá no tempo do FHC, que foi apoiado no governo Dilma e implantado no atual governo Temer. A ideia aqui é testar o projeto, tentando dar a ele um sentido prático, imaginar o que ele pode representar para o mercado de trabalho em geral.

E não é preciso recorrer a gurus econômicos para se ter pelo menos uma noção do que vai de fato acontecer. Basta dar uma pesquisada no que é, e no que sempre foi, o mercado publicitário. Esse sim, campeão da terceirização.

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Para quem não sabe, a profissão de publicitário foi regulamentada em 1965, mas o mercado é quem dita e sempre ditou as regras da categoria. As agências nunca exigiram formação universitária na hora de contratar os seus profissionais. O talento, a versatilidade, o desembaraço, a confiança e a dedicação sempre foram os grandes diferenciais dos profissionais na hora de construir seus currículos ou encarar as entrevistas de emprego.

Na minha humilde opinião, essa foi uma estratégia bastante funcional. Quem conhece da profissão sabe muito bem que esses atributos são de fato cruciais para quem quer se aventurar no mercado. E a produtividade e evolução dos profissionais está estritamente ligada aos resultados obtidos através do bom emprego desses atributos e não ao que se ensina nas universidades. Infelizmente essa é uma área onde a estrutura acadêmica sempre foi precária e pouquíssimas são as escolas com uma boa reputação no mercado.

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Acontece que o próprio modelo de se contratar gente talentosa e habilidosa acabou supervalorizando os profissionais da área e atraindo gente de outros segmentos, como jornalistas, arquitetos, escritores, artistas plásticos e até mesmo advogados e administradores. Como os salários eram atraentes, e não se exigia formação acadêmica, a corrida para as agências foi intensa.

E apesar de ser uma atividade onde as margens de lucro sempre foram bastante generosas, houve um momento em que ficou muito difícil manter os salários dos profissionais e a avalanche de encargos e impostos a que os empresários da área se submetiam.

O primeiro passo foi negociar os salários de forma que os valores não aparecessem integralmente nas carteiras de trabalho. Assim, o funcionário teria um registro de apenas 20 ou 30% do salário em carteira e o restante ele receberia por fora, sem comprovação. Para o funcionário era bom porque não cairia nas faixas de 15, 22,5 e até 27,5% de imposto de renda retido na fonte. E para o empregador, é claro, excelente: uma economia de mais de 50% do valor final a ser pago.

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Acontece que , como é uma área onde a carga de trabalho é muito variável e não pode ser medida por parâmetros estatísticos, como por exemplo o de produção em escala ou algo do tipo,  sempre foi bastante comum a contratação de freelancers para a execução de Jobs que fugiam à capacidade de produção das agências. E, é claro, todos esses trabalhos eram terceirizados. Uma prática bastante lógica diante dessa dificuldade de se prever tais variações no volume de trabalho.

Mas chegou um determinado momento do mercado em que os clientes começaram a questionar os altos honorários que pagavam para as agências em percentuais de mídia e produção. E pressionaram ao ponto de conseguir uma senhora redução nesses valores. Isso fez com que a margem de lucro das agências diminuísse consideravelmente.

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E o que aconteceu?

Como a prática da terceirização já era bastante difundida no meio, as agências passaram a contratar profissionais terceirizados para cargas de trabalho de 8 horas diárias. Ou seja, boa parte (talvez até a maioria) dos funcionários das agências de publicidade passaram a ser terceirizados. E o mercado continuou a funcionar como sempre funcionou: apostando nos profissionais de maior talento e de grande capacidade produtiva, independente do sistema de contratação.

Não que esse modelo sirva como referência para o que se espera da nova lei. Até porque, a Publicidade sempre foi um mercado atípico… tanto pela licensiosidade como pelo padrão de valorização profissional.

Mas cabe refletir principalmente quando se analisa sob o ângulo da livre concorrência e da necessidade de se agregar valor profissional na hora de se buscar uma vaga no mercado de trabalho.

O que eu quero dizer é que a merda já está feita… e que chorar não é a melhor estratégia. Se você vai perder direitos trabalhistas, que se prepare então para se transformar no melhor profissional e ser valorizado por isso. É a nova lei satânica do mercado. E não foi feita para anjinhos.

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O marketing matador.

Parece que algumas coisas estranhas só conseguem autorização divina para acontecer aqui… no nosso país.

Quem não lembra de Geisy Arruda, que virou celebridade por ser hostilizada na universidade ao ir à aula com uma saia rosa muito curta… o que lhe rendeu fama, dinheiro e uma posição de causar inveja a todas as saias curtas do país?

Ou mais recentemente de um assaltante que foi preso na Bahia e que em dois meses virou um MC de sucesso, vendendo milhares de cópias da música “Me libera nega”, que foi popularizada só porque a TV acabou filmando o elemento cantando dentro da viatura?

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O fato bizarro da semana é um tanto diferente. Envolve, ao contrário dos outros, um sujeito que já era personalidade, mas que estava preso por ter mandado matar a sua ex-amante e possivelmente ter dado o seu corpo para os cães comerem. E que agora volta aos noticiários por estar solto e por ter sido contratado por um time de futebol de Minas que quer se promover à custa de sua fama de assassino.

A figura em questão se chama Bruno Fernandes de Souza, nascido em 11 de março de 1984, em Ribeirão das Neves – MG, que foi condenado a 22 anos e 3 meses de cadeia por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver e que o ministro do Superior Tribunal Federal, Dr. Marco Aurélio Mello, concedeu a liberdade após ter ficado preso por apenas 6 anos e 7 meses.

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Solto no dia 24 de fevereiro de 2017 por bom comportamento, o ex-goleiro do Flamengo já deu uma declaração que traduz a sua personalidade de bad boy: “O fato de eu ficar mais tempo preso não a traria de volta”.

Se fosse nos Estados Unidos, onde as leis são feitas para serem cumpridas, o atleta teria amargado uma pena muito maior. Ou pelo menos não teria essa redução desrespeitosa que permite que um autor de um crime hediondo volte para a sociedade em pouco mais de seis anos. Nos Estados Unidos, um preso com menos de 10 anos de pena é considerado de alto risco de reincidência no crime e, por isso, deve ser submetido a um intenso trabalho de ressocialização, recebendo acompanhamento psicológico, prestando serviços sociais em comunidades carentes e sendo controlado de perto pelo estado.

A ressocialização de Bruno é no mínimo glamourosa. Vai voltar a jogar futebol, que é o que sempre quis na vida, e defender as cores de um time profissional do seu estado, ganhando 12 mil reais por mês e já com aumento garantido para 20 mil a partir de maio, ou seja, daqui a dois meses.  Pode parecer pouco dinheiro para um ex-goleiro de uma grande equipe como o Flamengo, mas não esqueçam que ele ainda deveria estar preso, limpando as latrinas das celas, como todo homicida triplamente qualificado.

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Mas o assunto desse artigo não tem nada a ver com o sistema judiciário e suas determinações penais. Essa introdução só serve para contextualizar o foco da matéria: o marketing institucional.

E o alvo da crítica não é o penalizado e nem mesmo o penalizador, mas sim uma entidade esportiva que resolveu se promover contratando o famoso assassino e assim direcionar os holofotes para o clube, que até então não passava de um coadjuvante no futebol brasileiro.

O Boa Esporte Clube de Varginha, time da segunda divisão do futebol mineiro, foi o grande articulador desse marketing institucional polêmico, pra não dizer suspeitoso e, em se tratando do tema “violência contra as mulheres”, escandalosamente preconceituoso.

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Como pode um time de futebol contratar um assassino , um homem que matou a ex-amante por não querer reconhecer a paternidade de um filho seu? Quais são os critérios dos diretores do clube? Eles afirmam que estão contribuindo justamente para esse processo de ressocialização de um ex-detento, dando-lhe oportunidade de reinserção na sociedade. São uns descarados, filhos da puta… isso sim. Por que, em vez de contratar o Bruno, não fizeram uma seleção de 4 ou 5  ex-presidiários da mesma cadeia a título de criar oportunidade pra eles? Seria bem mais barato do que os 20 mil mensais que vão pagar para o goleiro. Mas, é claro, não traria ao clube a visibilidade que eles esperam conseguir com a proeza de contratar uma personalidade do futebol nacional, mesmo sendo um assassino frio e sarcástico.

Mas existem coisas ainda mais dolorosas: ver, por exemplo, uma foto dessas (abaixo), tirada essa semana no campo de treino do Boa Esporte, onde três crianças e duas mulheres esperam pacientemente na fila para pedir autógrafo a Bruno, o goleiro matador.

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Não sei mais como qualificar esse episódio, mas espero que a torcida do clube e especialmente os seus patrocinadores tomem alguma atitude para frear esse jogo de interesses bizarros.

Merecem elogios as empresas Grupo Góis & Silva, Kanza, Cardiocenter Varginha, Magsul e Nutrends Nutrition que já cancelaram seus contratos de patrocínio com o clube.

Mas cabe lembrar que a Profile, a Kipão, a Kanxa, a Fenix, a Fazenda Ouro Velho, a Dengue Control e a própria prefeitura ainda apoiam o clube.

Só um conselho para a população de Varginha: Bruno pode ser a bola da vez do Boa Esporte, mas não deixem que ele seja um gol contra para a cidade.