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Hoje o mundo acordou verde… e triste.

Uma tragédia aérea matou mais de 70 pessoas entre tripulantes, jornalistas, dirigentes, comissão técnica e jogadores da Chapecoense, um time de futebol que alcançava a sua maior glória indo à Colômbia disputar o inédito título de campeão sul-americano.

Um time que encheu os olhos de torcedores e apaixonados pelo esporte com um futebol de primeiríssima qualidade e que impressionou os profissionais da área e a imprensa em geral, provando que é possível sim, mesmo com um orçamento reduzido, uma equipe considerada “pequena” ficar entre as 10 primeiras no campeonato brasileiro da primeira divisão e ainda chegar a uma final de competição internacional.

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Um sonho interrompido por um acidente que tirou a vida de praticamente todo o time, poupando apenas 3 jogadores que podem ser considerados frutos de um milagre de Deus, mas que eu prefiro chamar de uma grande obra do acaso.

Colocando de lado discussões menos importantes como a previsão quase certeira de um vidente paranaense sobre o acidente…  e a sorte de algumas pessoas que deixaram de embarcar por  um motivo qualquer, como no caso do filho do treinador Caio Jr que perdeu o voo porque esqueceu o passaporte, dois fatos me chamaram a atenção nesse lamentável episódio.

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O primeiro foi o discutível depoimento do vice-presidente da Chapecoense, Ivan Tozzo, que (acredito eu por inocência ou abalo emocional do dirigente) acabou gerando uma interpretação estranha ao aparentemente dar mais importância à instituição Chapecoense do que às vidas que foram perdidas na tragédia. Vejam a íntegra do depoimento e, em negrito, o momento em que ele se expressa de maneira contestável:

“Muito triste a notícia que recebemos hoje de manhã. Jamais iríamos esperar. Estamos reunidos no estádio, recebendo as pessoas envolvidas, as pessoas que amam a Chapecoense. É uma notícia que não existe. Até agora não caiu a ficha. Estamos no aguardo, todo mundo confiando em Deus que as coisas vão acontecer certo para nós. É complicada a dor. Eu que estou há muito tempo envolvido na Chapecoense, sei o que passamos até aqui. Agora que chegamos, não vou dizer no auge, mas em destaque nacional, acontece uma tragédia dessa. É muito difícil, uma tragédia muito grande.”

Lendo o texto, pode não parecer tão controverso assim, mas eu casualmente vi a entrevista ao vivo e, na hora, pelo tom da resposta, causou de fato uma má impressão.

Volto a dizer que não acredito que o vice-presidente tenha pensado mais no clube do que nas famílias das vítimas, mas é muito importante, especialmente em momentos críticos como esse, que um alto dirigente esteja preparado para falar em público sem cometer erros ou gerar interpretações duvidosas como essa.

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O segundo ponto é a necessidade da mídia de emitir notícias ininterruptamente, na velocidade da luz, sem avaliar as consequências de publicar matérias que não foram devidamente checadas. O fato é que durante a manhã de hoje, o atleta Danilo Padilha já foi noticiado como morto e como sobrevivente por diferentes veículos de comunicação online. E ainda agora (hora em que eu estou escrevendo esse artigo) alguns sites (como o G1) continuam confirmando o falecimento do jogador

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http://g1.globo.com/pr/norte-noroeste/noticia/2016/11/goleiro-danilo-morre-apos-ter-sido-socorrido-de-acidente-com-aviao.html

e outros (como o UOL)  insistem na informação de que ele está vivo.

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http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2016/11/29/heroi-da-classificacao-danilo-e-uma-das-vitimas-do-acidente-da-chape.htm

Agora imagine uma mãe desesperada, absolutamente plugada na internet em busca de notícias do seu filho, diante de um absurdo desses:

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http://sportv.globo.com/site/programas/selecao-sportv/noticia/2016/11/mae-de-danilo-diz-estar-desesperada-sem-saber-se-o-filho-esta-vivo-ou-morto.html

 

Pois é, sem comentários.

 

 

 

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O que essa galera tem na cabeça?

Hoje eu não vou falar de publicidade, mas de moda… conceitos de certa forma até bem próximos, ou pelo menos muito relacionados. Na verdade, vou falar de modismos.

Mais especificamente dessa onda dos cabelinhos raspados na lateral e com um pega-rapaz em cima que, na minha opinião, é ridícula demais. Tudo bem, vocês devem estar pensando que eu sou velho e por isso estou criticando o corte.

Ok, tenho que admitir. Mas uma coisa é certa: a idade acaba nos trazendo discernimento suficiente para nos afastar um pouco dos modismos, que nada mais são do que a necessidade de seguir padrões. Padrões que a maioria das pessoas não critica e nem mesmo avalia. Padrões criados não se sabe por quem ou com que competência, sejam eles de ordem estética ou de conduta.

Além de demonstrar certa falta de personalidade, o ato de seguir e perseguir constantemente a moda (sem o mínimo espírito crítico) é profundamente lamentável. Mas infelizmente acontece com muuuiiiita gente.

Vamos começar provocando um mínimo de reflexão de ordem estética: raspar as laterais da cabeça faz com que o crânio se alongue, especialmente nas pessoas de cabelos volumosos. E se essa pessoa já tem um crânio alongado, a tendência é que sua cabeça se afine radicalmente, se assemelhando a um pepino.

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Rostos triangulares pedem fios mais compridos, com mechas caindo pela testa e laterais da cabeça. Já para os quadrados, o ideal é um corte mais assimétrico, com fios repicados ou pontas irregulares, tirando assim a sisudez desse tipo de rosto.

Aí você pergunta: como esse cara, antigo desse jeito, sabe dessas coisas?

Ora, eu simplesmente consultei um site na internet (http://bit.ly/2fAeO82).

Ou seja, algo que todos esses meninos-seguidores-de-modismos, que raspam as têmporas, usam barba cortada com máquina 4 e coquezinho de samurai, deveriam fazer. Provavelmente eles teriam achado um corte que favorecesse o seu tipo de rosto, ao invés de imitar os jogadores de futebol e os bombadões de academia.

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Eu uso suspensórios, chapéu e óculos de lente grossa, ou seja, estou a anos-luz de distância da moda. E mesmo quando eu acho que a moda tem a minha cara, nunca consigo segui-la (vai ver é a minha cara que não ajuda muito). Eu só procuro manter o meu estilo na hora de me vestir.

Mas com esse jeitão nerd-antiquado, eu não sou exemplo pra nada. Eu só quero dizer que o importante é usar aquilo que nos faz bem, que nos deixa confortáveis e felizes.

Todo mundo tem que ter a liberdade de vestir o que quiser e cortar o cabelo da maneira que bem entender. Mas, por favor, procurem preservar um pouco de suas personalidades. As nossas convicções são muito mais importantes do que a roupa que vestimos ou o cabelo que cortamos ou deixamos de cortar.

Não que a gente tenha que evitar definitivamente a moda, mas pelo menos avaliar se ela se encaixa na nossa maneira de ser, de agir e de pensar. E também, é claro, se ela se comporta bem com a nossa estética.

E olha que vocês têm muita sorte de não terem vivido na década de 80.

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Sexta-feira negra.

Sexta passada, eu acordei estranho. Com uma sensação de culpa e ao mesmo tempo uma necessidade de me libertar dessa culpa, mesmo não sabendo do que se tratava.

Saí do quarto com a cara meio amassada de um sono mal dormido e quase atropelei a Marilda que saía do banheiro puxando um balde e um esfregão. Ao olhar nos seus olhos, percebi que ali poderia estar a minha culpa e, consequentemente, a chance de me redimir.

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Imediatamente pensei em suas dificuldades, o filho doente, o marido desempregado… e resolvi ajudar. E saí logo disparando:

“Marilda, você está precisando de alguma coisa, uma ajuda?”

E ela disse:

“Como assim?”

“Sei lá… uma roupa pro seu marido , um tênis pro Pedrinho, um pouco de dinheiro… “

“Mas o senhor não está todo encalacrado aí com dívidas e contas pra pagar?”

”Isso não tem nada a ver, Marilda. Eu posso ajudar sim”.

“Mas como o senhor pode ajudar se não paga o condomínio há 5 meses?”

“É, não pago mesmo, mas ainda assim eu posso ajudar.”

” Sr Brain, dá um tempo, vai. O senhor por acaso já pagou a padaria do mês passado?”

“Não.”

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“E os 2 mil que o senhor pediu emprestado pra sua irmã?”

“Putz, ainda não.. tenho que ligar pro banco pra dar um jeito nisso.”

“Falando em banco, o senhor não fez outro empréstimo esse mês?”

“Foi, fiz sim.”

“E já não é o terceiro que o senhor faz de agosto pra cá?”

“Nada disso, é o segundo… não, é isso mesmo, é o terceiro sim, mas…”

“Sr Brain, me diga uma coisa: o que aconteceu com aquele quadro feio, cheio de bandeirinhas que tinha na sala?”

“O Volpi que eu ganhei do meu pai?… eu vendi, Marilda, precisava pagar a escola dos meninos que eu não pagava desde o ano passado… Sim, mas isso não importa. Você está precisando ou não de dinheiro ou de alguma coisa?”

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Não, Sr Brain, obrigada. O senhor já é bom demais comigo me dando emprego. Eu não preciso mesmo, obrigada.”

 

Ela fez um omelete e um suco de laranja pra mim e foi embora porque o último ônibus pro seu bairro já tava quase passando.

Ao entrar no quarto, notei um bilhetinho aparecendo por baixo do meu livro de cabeceira. Dentro do bilhete tinha uma nota de 100 reais e o textinho:

 

“Sr Brain, deixei isso pro sinhô. Pra ajudá. Eu tenho umas economia aí. Paguei até o meu aluguel adiantado já. Quando pudé o sinhô me paga.

Ah, num esquece de dá comida pro Bob. Eu comprei um pacoti de ração daquela mais baratinha.

FICA CUM DEUS.

Marilda.”

 

Como não tinha ninguém em casa pra ver a minha cara de idiota, amassei o bilhetinho, enfiei o dinheiro no bolso e abri o jornal pra ver as ofertas do Black Friday da Fast Shop. Tô precisando de uma TV maior pra ver a NFL sem óculos.

 

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Halloween, o terror dos nacionalistas.

Chega essa época de fim de outubro e eu ouço a mesma ladainha dos nacionalistas de plantão: “É um absurdo comemorarmos o Halloween e não a Festa do Saci, da Mula-sem-cabeça ou da Cuca.”  É mais ou menos a mesma coisa que detonar o Tim Maia por ter trazido a sonoridade da black music dos “states” e dizer que o brasileiro deveria ouvir sua música de raiz como o samba ou as Sertanílias de Elomar. Só que eles se esquecem de que o samba não foi criado por Caramuru e sim por uma mistura dos batuques africanos e das marchinhas europeias. E que a música erudita de Elomar está muita mais ligada às raízes árabes e mediterrâneas do que ao sertão da Bahia.

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Essa coisa de supervalorizar a cultura brasileira começou a tomar força de fato na Semana de Arte de São Paulo, no início do século passado. E rapidamente virou moda no meio intelectual. Aliás, a intelectualidade brasileira está muito mais sujeita a modismos do que a garotada que frequenta os barzinhos da zona sul do Rio ou o Shopping Iguatemi de São Paulo. Foi assim em 1922, em 1969 e agora, de 2010 pra cá, com a instituição do politicamente correto.

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O intelectual brasileiro, de classe média média, artista, professor universitário, defensor das minorias e torcedor do Flamengo, curte mesmo é andar de SUV, passar o inverno em Paris, frequentar o Baixo Leblon , ver o Chico no Canecão e usar um All Star de “Vans em quando”. Na verdade ele nem sabe se as cotas universitárias e a recuperação de infratores são pautas mais importantes do que a alimentação vegana. Mas insiste em igualdade e distribuição de rendas, esquecendo que um show do Chico não sai por menos de trezentão.

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Me desculpem, mas não é uma questão de desvalorizar a nossa cultura. Acontece que vivemos num mundo absolutamente globalizado e querer ser ultranacionalista numa época em que é mais fácil falar com quem está no Japão do que em Alvorada de Minas é no mínimo curioso. O que importa de fato é a liberdade, seja ela de expressão, de manifestação, de paixão ou de consumo.

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Que os nacionalistas sejam felizes com as suas exteriorizações e teorias.

Mas que não encham o saco das pessoas que curtem uma festinha de Halloween. Até porque aposto que no Natal eles vão comprar um presentinho pra mulher, pros filhos e pros amigos. Mesmo que alguém lembre que o Papai Noel na verdade se chama Santa Claus e que Jesus não nasceu em Belém do Pará.

E olha que eu nem falei do carnaval, hein.