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Estudante de Publicidade tem que ser criativo, principalmente na hora de arrumar emprego.

Em Santos, quase 300 alunos formados por semestre em Publicidade e Propaganda são despejados no mercado de trabalho em busca de uma tão sonhada vaga de emprego. E as agências de publicidade locais, que seriam o primeiro foco de interesse dos recém-graduados, não oferecem vagas nem mesmo para 5% desses futuros profissionais.

Aí a pergunta é quase automática: por que o mercado local não consegue absorver essa galera sedenta por uma oportunidade? Aumento dos índices de desemprego? Agravamento da crise econômica, reduzindo a capacidade de contratação das agências?

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Se algum desses motivos tem implicação direta no problema, ela certamente não é das maiores. O real motivo pode estar na sombra de um gigante. Isso mesmo, uma impressionante sombra que faz com que alguns setores da nossa economia local praticamente desapareçam. E esse gigante atende pelo nome de São Paulo.

É para lá que migram as verbas publicitárias dos poucos grandes clientes que a cidade produz. Essas empresas, que têm punch para investir em publicidade, preferem dotar suas verbas para grandes agências de São Paulo com a “ilusão” de que serão melhor atendidas.

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Seria até um raciocínio lógico se na prática funcionasse, mas o que acontece de verdade é que essas grandes agências de São Paulo estão acostumadas a gerenciar budgets astronômicos, o que coloca os nossos anunciantes na categoria de pequenos clientes. E para pequenos clientes, essas agências já não dispõem de um atendimento assim tão profissional: é muito comum ver duplas de estagiários criando peças para clientes desse porte… assim como profissionais de atendimento novatos, mídias debutantes e planejadores de pouca experiência formando núcleos de execução de jobs do segundo escalão.

E isso acontece inclusive com as prefeituras da região e as grandes empresas do polo petroquímico e do porto. Imagine o impacto que a verba desses clientes teria no mercado publicitário local.

É bem provável que esses “grandes” anunciantes, que optaram pelas agências da capital, fossem melhor trabalhados pelas empresas de propaganda daqui. Aposto que o atendimento seria mais personaizado, até porque essa verba _ que para o mercado local é considerada grande _ poderia ser usada para melhorar a infraestrutura das nossas agências, especialmente com a contratação de novos profissionais.

Voltemos então aos 300 despejados das instituições de ensino. Diante desse quadro pouco inspirador, eles mesmos já saem de suas universidades com a intenção de trabalhar em São Paulo, afinal é lá que estão os grandes salários da área. Mas esse é um dos mercados mais cruéis para os neófitos dessa religião. As grandes agências paulistanas só dão oportunidades para estágios de baixa remuneração, o que acaba selecionando drasticamente os candidatos da baixada, afinal nem todo mundo tem recursos para bancar aluguéis em São Paulo ou deslocamentos diários até aparecer de fato a oportunidade de efetivação.

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E esse é um círculo vicioso, onde não existe vaga de emprego aqui porque as agências locais não têm estrutura. E não têm estrutura porque não têm verba. Verba que os bons clientes daqui levam para São Paulo, onde acabam sendo mal atendidos. Mal atendidos em agências que não absorvem os recém-formados daqui.

Resumo da ópera: cerca de 90% das pessoas que estudam publicidade e propaganda acabam trabalhando em funções que não têm relação alguma com a sua formação. E na maioria dos casos, acabam ganhando melhor do que se estivessem na área. Parece piada, mas é a triste realidade.

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Menos ego, mais ação.

Apesar da profissão ter perdido muito do seu glamour nessas duas últimas décadas, o publicitário sempre foi cultuado e reconhecido como um cara inteligente, moderno, descolado e, como não podia ser diferente, inovador. Especialmente os profissionais de criação. A soma dessa hipervalorização e dos altos salários que as agências de propaganda pagavam (até mesmo para meninos de vinte e poucos anos), fez com que seus egos inflassem e transformasse esse nicho de emprego vip na mais arrogante e metida a besta das categorias profissionais. É claro que existiam e ainda existem muitas exceções, mas quem conhece do setor sabe muito bem que eu não estou cometendo nenhum exagero. Pra vocês terem uma ideia, existem muito mais prêmios de publicidade no Brasil do que de cinema, teatro e televisão juntos.

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Mas não é justo apenas criticá-los. Mesmo que a qualidade dos criativos tenha caído bastante nos últimos anos (e isso se deve a vários outros fatores que eu não teria como citar todos aqui), é importante dizer que para exercer essa função é necessário sim um talento que poucos têm. Criação publicitária exige sinapses que nem todo cérebro consegue efetuar. Associações e codificações que só quem tem um senso de observação acentuado e uma bagagem de informação acima da média é capaz de executar.

Lastimável é ter todo esse potencial direcionado apenas para vender produtos e serviços… valorizar marcas e grifes… e trabalhar a imagem de políticos não necessariamente confiáveis.

E é nesse exato ponto que entra a Brandalism, o objetivo principal desse artigo.

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Brandalism é um movimento criado na Inglaterra que basicamente protesta contra a necessidade do consumo excessivo, desencadeado principalmente pela propaganda. Iniciou timidamente suas atividades em 2012 com dois artistas, uma van e a ideia de ocupar espaços publicitários com arte. O movimento ganhou corpo e hoje é referência mundial no que se refere a alertar as pessoas de que a publicidade estimula o consumo desenfreado e que isso não faz parte da natureza humana. Mas apesar do nome (brand = marca + vandalism = vandalismo) o movimento se notabilizou por uma atuação pacífica, onde a prática é transformar a propaganda de rua em arte.

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Há cerca de dois meses, o Brandalism fez o seu protesto mais interessante. Cobriu espaços publicitários de mídia exterior com cartazes que falavam diretamente com os profissionais de criação das grandes agências de publicidade de Londres. Com mensagens cujos títulos eram “Trabalha na JWT?” ou “Trabalha na Ogilvy” e um texto que dizia “Lembre-se que você está moldando o desejo das pessoas. Você tem poder e responsabilidade moral. Adoraríamos falar com você.” E assinava com o site da Brandalism.

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A proposta ousada, que mais se caracteriza como um manifesto, é melhor explicada na voz de Robert Marcuse, um dos membros do Brandalism: “As habilidades de milhares de criativos são necessárias não para nos vender mais objetos, mas para superar as múltiplas crises sociais do nosso tempo, como as mudanças climáticas, a desigualdade social e a pobreza entre as crianças. Queremos iniciar uma conversa com aqueles que trabalham na publicidade sobre como ir além do consumo e do crescimento econômico”.

Por mais utópica que seja, a proposta é realmente brilhante, mesmo que fique apenas no campo do discurso. Mas seria muitíssimo importante que todos os profissionais de criação ao menos entendessem essa provocação e percebessem que o seu trabalho poderia de fato ter uma utilidade pública e não apenas econômica.

Que você, publicitário, seja capaz de compreender que o seu potencial criativo pode e deve ser canalizado também para algo mais nobre, para ações que realmente possam trazem benefícios para todos e não apenas colocar as pessoas num mundo de ilusões onde o desejo é essencialmente material e nunca emocional. Já imaginou salvar uma criança de morrer de fome com uma ideia sua? Pois é, esse pode ser o maior prêmio da sua vida.

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O pequeno mundo das redes sociais.

“As pessoas não usam as redes sociais para unir ou para ampliar os seus horizontes. Usam, na verdade, para se fechar em zonas de conforto onde o único som que escutam é o eco de sua própria voz… onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras.” O argumento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, crítico mordaz da política global e das benesses da revolução digital, traz ainda um desfecho preocupante: “As redes são muito úteis, oferecem serviços bastante prazerosos, mas são uma armadilha”.

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Exatamente isso!

Facebook, Snapchat, WhatsApp e os Telegrams da vida nada mais são do que estábulos organizados onde bovino convive com bovino, equino com equino e suíno com suíno. Acontece que esse gado não é capaz de enxergar o próprio confinamento e galopa eufórico em seu espaço demarcado sem perceber que o seu destino é o abate social. Como diria o velho e bom Zé Ramalho: Ê Ê Ô, vida de gado. Povo marcado, povo feliz.

E nem pense em convencer essas pessoas a se libertarem desse mundinho… elas projetam esse nicho como uma célula de segurança, onde as opiniões diferentes permanecem do lado de fora, protegidas por um campo de força impenetrável. Um lugar onde não há contestações ou discussões, apenas concordância. Um lugar onde todos têm a obrigação de pensar igual, de reagir como todos reagem, de terem as mesmas visões políticas, sociais ou filosóficas… sob o risco de serem banidos, expulsos, bloqueados.

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E não pense também que se trata apenas de diversão. Se houvesse uma enquete sobre o que é realmente importante na vida das pessoas, eu aposto que o WhatsApp estaria entre as 3 primeiras, disputando palmo a palmo com filhos, pais, maridos e esposas.

Se você acha que eu estou exagerando, experimente proibir alguém de usar smartphone, tablet ou computador. Esse alguém não vai sentir falta de fazer chamadas via celular ou de fazer pesquisas na internet. Nada disso. Ele vai tremer, como na abstinência de um viciado em drogas, por não poder se relacionar com os seus amigos do WhatsApp e do Facebook.

É claro que há exceções. E num universo de milhões de pessoas, elas não podem ser poucas. Existe sim vida inteligente nas redes sociais, mas essa não precisa de conselho ou alerta.

Apesar de oferecer infinitas possibilidades de troca de informações e um vastíssimo campo de absorção de conteúdo, o que realmente uma rede social costuma imprimir em seus participantes é um processo severo de idiotização. Onde predominam o cerceamento dos pontos de vista, a desconstrução do sentido de democracia e a apologia ao enfrentamento.

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E o mais incrível é que as pessoas não enxergam nada disso. Pra elas, tudo é normal. Acham que esse odiozinho destilado na rede faz parte de suas personalidades, que, na verdade, todos são assim. Elas só esquecem que esse ódio e essa diferença nasceram justamente dentro dessa redoma de segurança. Esquecem que essa coragem só existe porque é virtual. Porque ninguém corre o risco de tomar um tapa na cara. E esquecem também de que existe um mundo real lá fora, onde a regra ainda é respeitar os outros.

As redes sociais tinham tudo para ser o espaço perfeito de integração, mas infelizmente são compostas por esse gigantesco rebanho agrupado em ilhas de mediocridade e separado por gados de muita carne, pouco leite e zero de tutano.