Crises

A propaganda da crise.

Um sujeito tinha um carrinho de cachorro quente na beira da estrada. Era um cara dedicado, trabalhador e com uma boa visão comercial. Aliás, o seu negócio ia de vento em popa. Mas o sucesso não tinha nada de surpreendente. Ele servia um produto de qualidade e investia muito em propaganda. Na estrada era comum ver placas indicando “O melhor cachorro quente a 2 km”, “… a 1 km”, “… a 500 m”. Tanto na pista de ida como na de volta.

Como era de se esperar, o empreendimento cresceu e em pouco tempo já era uma rede de food trucks com o melhor cachorro quente do estado. E para perpetuar o negócio, mandou o seu filho mais velho estudar Economia em Harvard. Formado, o rapaz (que era o xodó do pai) voltou para o Brasil e assumiu a administração da empresa.

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Trazendo notícias da iminente crise mundial, o jovem convenceu o pai a fazer cortes radicais no orçamento. Como primeira medida, suspendeu integralmente a verba de propaganda. Resultado: em pouco mais de 6 meses, bem no meio da crise, a empresa quebrou. O pai, que amava o filho acima de qualquer coisa, ao assinar a falência com os olhos marejados, disse apenas: “Bem que o meu filho me avisou sobre a crise”.

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A fábula, apesar de antiga, é interessante. E o seu final filosófico, que prega o desapego material e a compreensão, chega a ser comovente.

Mas me desculpem, isso é apenas uma fábula. Sou publicitário e vivo de estimular o consumo, mesmo que ele vá de encontro à ideologia imaculada de quem condena o capitalismo e suas influências. E, gostando ou não, vivemos num capitalismo. E é nele que temos que aprender a ser justos, corretos e inteligentes. Afinal, é preciso sobreviver.

O que realmente se extrai dessa história não é um ensinamento de mestres ou gurus e sim um grande erro mercadológico que destruiu uma empresa honesta, sadia e que provavelmente daria sustento para as próximas gerações da família. Sustento e exemplo.

Aliás, a história pode se encaixar perfeitamente nos dias de hoje. O que mais se vê ultimamente é retração de investimentos, cortes de budgets, demissões, pés no freio. É óbvio que o momento exige inteligência e parcimônia. Mas cortar verba de propaganda pode ser um claro exemplo de tiro no pé. Como aconteceu com o carrinho de cachorro quente.

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Na crise, as pessoas não param de consumir. Elas se tornam mais comedidas e seletivas em relação ao consumo. Mas se você tira o seu produto de evidência, essas pessoas não vão enxergá-lo e consequentemente não vão consumi-lo.

Não adianta ficar falando de crise, isso só estimula a retração. O importante é divulgar o seu produto. Porque essa ainda é a melhor forma de alcançar o consumidor, independente do momento.

É como bem disse um outdoor que andou circulando na internet:
Sabe por que a crise pegou? Porque ela fez propaganda.

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O negócio é a alma da propaganda.

A Fenapro – Federação Nacional das Agências de Propaganda – acaba de divulgar um manifesto que destaca a importância do papel da comunicação nesse momento meio conturbado por que passamos. Até aí, tudo bem. Eu só não consegui entender exatamente qual é a intenção do manifesto. Vamos lá.

Abre o documento, a seguinte afirmação: “O Brasil vive um dos mais acirrados debates políticos de sua História, e nunca a comunicação teve um papel tão fundamental na divulgação das informações envolvendo os episódios da cena política.”

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Isso é fato. Não há como negar. Nunca nesse país houve tamanha mobilização, provocada exclusivamente pelo poder da comunicação.

O documento segue e chega num ponto que me parece mais significativo: “Em um contexto onde os meios eletrônicos de difusão de informações, e em especial as redes sociais e a internet, tornaram-se parte fundamental do exercício da democracia, também se constata muita informação desencontrada, inverídica e contraditória,o que acirra o debate e cria insegurança quanto ao que deve ser entendido como o caminho do equilíbrio, da justiça e da verdade.”

Desculpe, mas o fato de as pessoas postarem absurdos no facebook e usarem a internet para compartilhar matérias muitas vezes de teor pernicioso, revelando a pocilga que se transformou o jornalismo online, não me faz crer que a difusão de informações na net seja um exercício de democracia. O que as redes sociais fizeram na verdade foi bagunçar a cabecinha dos usuários, transformando-os em defensores de causas insensatas ou extravagantes. E o pior de tudo, criando uma bipartição de opiniões regadas a animosidade e rancor, com episódios offline de violência e selvageria. Não lembro de ter aprendido na escola que democracia significasse algo do tipo.

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Um pouco mais à frente outro trecho curioso: ” Todo emissor de uma comunicação deve dar a devida importância ao que comunica e responsabilizar-se pelas consequências.”

A frase chega a ser divertida, aliás a carta da Fenapro mais parece uma professora de Educação Moral e Cívica falando com seus alunos desatentos no início da década de 80.

Caros diretores da Fenapro, apesar do Marco Civil da internet, as redes sociais ainda são praticamente terra de ninguém. O povo fala o que quer, ouve o que não quer e, o pior, convence aqueles que não sabem falar nem ouvir. Vide a atuação da militância política digital, talvez o grande câncer do ambiente online. Não sou contra a propaganda política na internet, mas criar perfis fakes disseminadores de informação tendenciosa ou forjar matérias com fatos irreais e estatísticas deturpadas com a intenção declarada de cooptar correligionários inocentes ou, ainda mais grave, acobertar crimes políticos e sociais, me soa de uma irresponsabilidade ímpar, com muitas consequências… e pouca ação legal.

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E aí chega o ponto do manifesto em que eu quase consegui entender a intenção da Fenapro:
“O Brasil tem uma propaganda madura e responsável, que se destaca como uma das melhores do mundo. E há mais de 15.000 agências no nosso País, prontas para contribuir com uma propaganda eficaz. Temos também veículos de comunicação independentes e éticos. O sistema composto pelo investimento publicitário é a garantia de uma imprensa livre e independente.”

Eita!
Onde está a relação entre as “agências prontas para contribuir com uma propaganda eficaz” e os “veículos de comunicação independentes e éticos”? Ora, que eu saiba ela é apenas comercial. Ter um aporte financeiro dos clientes através de propaganda executada pelas agências não torna os veículos éticos. E o investimento publicitário não é a garantia de uma imprensa livre e independente. Pelo contrário, a imprensa acaba sendo refém desse investimento para sobreviver e consequentemente se torna mais flexível em relação a divulgar algo que não seja do interesse de seus investidores.

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O manifesto, na minha opinião, é um discurso moderado de uma Federação que se viu na obrigação de se posicionar nesse momento delicado do país. Só que o texto acaba dando uma leve escorregada no terreno ensaboado da conveniência.

Mas, tudo bem. Afinal, quem é que vai dar tanta importância assim pra esse texto? (além de mim)

O MANIFESTO DA FENAPRO: http://bit.ly/1SGLg0L

Votos

Troco remédio por votos.

Sexta-feira, vi  uma postagem sobre o Dia Mundial do Combate ao Câncer. A peça fazia alusão à fosfoetanolamina, a polêmica pílula que promete a cura de qualquer tipo de câncer.

Na hora resolvi escrever sobre o assunto. Até porque, toda a polêmica gerada foi fruto de uma guerra deflagrada nas redes sociais, ou seja, uma batalha de comunicação. E se é comunicação… é assunto para a coluna do Brain.

Em resumo:
de um lado, os defensores da necessidade de se testar clinicamente a droga para que a população não corra o risco de consumir um placebo e assim acabar melancolicamente com as suas esperanças de cura… ou, até mesmo, de ingerir uma substância que ainda não se sabe se é prejudicial ou não à saúde;

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do outro lado, os que acreditam no real poder da fosfoetanolamina e que defendem a teoria de que existe uma conspiração para esconder a cura do câncer, beneficiando as grandes indústrias farmacêuticas.

Analisando essa segunda possibilidade, Paulo Hoff, conceituado oncologista brasileiro, pergunta:
“Seria possível comprar toda a comunidade científica e médica brasileira?” E prossegue com uma constatação: “No Brasil, 60% das pessoas com diagnóstico de câncer são curadas por tratamento. Ou seja, uma pessoa que tenha opção terapêutica curativa pode simplesmente abandoná-la por acreditar numa droga que ainda nem passou por testes científicos.”

Aliás, uma droga que até o momento não obteve resultados realmente significativos desde que foi produzida pela primeira vez.

E o que aconteceu nesses últimos dias?

O congresso, movido pela choradeira de uma significativa parcela de internautas que emocionalmente defendem a liberdade dos doentes de experimentar a droga, aprovou o projeto de lei que prevê a produção e a livre distribuição do produto. E, com uma verba orçamentária remanejada sabe-se lá de onde, liberou a pesquisa para medir a eficácia da droga, coisa que levará no mínimo 6 meses para se ter os primeiros resultados.

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Eu entendo, é claro, a angústia e o desalento das pessoas que têm parentes próximos ou amigos com câncer na incessante tentativa, muitas vezes alucinada, de alcançar a cura.
Mas desconfio sinceramente de que a aprovação do projeto tenha sido uma medida populista. Afinal, defender a “possibilidade real de cura”, ou a “última esperança” pode ser uma espertíssima (e assustadora) estratégia política de transformar desespero em votos.

Se for comprovada essa desconfiança (minha e de muita gente que é contrária à liberação de uma droga sem testes clínicos), o projeto, que espera apenas a sanção presidencial para ser colocado em prática, pode se transformar num precedente para novas investidas políticas como essa. E também em mais uma prova de que a opinião de milhares de pessoas nas redes sociais pode ser capaz de interferir na vida de todo mundo. Mesmo que essas pessoas sejam desinformadas como toda e qualquer maioria.

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É triste ter que aceitar constatações como a de Umberto Eco: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade.

Pois é, apesar de ter falado a semana passada em me policiar, eu mais uma vez escrevi um texto longo. Quer saber de uma coisa: não estou nem aí. Vou continuar a escrever do jeito que eu acho que tem que ser. Afinal, sempre vai ter alguém interessado em ler… como você.